terça-feira, 16 de agosto de 2016

O SER É UM SOM

Comparando o que o pensamento da sabedoria oriental, africana e indígena afirmam sobre a definição do ser humano, fica claro que somos espírito e não matéria. Aprofundando um pouco mais a definição de espírito, que em sua raiz etimológica adquire também o sentido de “sopro”, existe a mesma equivalência na língua tupi,  cujo nome é “ayvu”. Assim, tradição tupi define o ser como um som, uma vibração.  Quando por sua vez comparamos com os estudos mais avançados da ciência de hoje, particularmente a física quântica; esta também define a matriz do ser como onda e vibração.
Então, como se manifesta essa luz/vibração que somos?  Isto é que é muito importante para absorvermos este conceito de profunda sabedoria. Simplesmente através de quatro aspectos do que nomeamos como fatores estruturantes da consciência:  o pensamento, o sentimento, a intuição e as sensações.
 Em relação a estes aspectos, Carl Jung os considerou como funções psíquicas. Podemos então deduzir que aquilo que pensamos, sentimos, desejamos e intuimos são frequências vibratórias/luminosas em essência. E o que difere tais frequências é a maneira como cada indivíduo as qualifica.
Quando qualificamos algo, estamos dando sentido a algo. E aquilo que damos sentido, é vivo. Independente de ser algo de boa qualidade ou má qualidade, ou de ser uma expressão que gere terror, medo, raiva, ódio, compaixão, alegria, paz, etc. Procede do mesmo princípio, ou seja, é uma vibração. E a responsabilidade da qualidade da vibração é de quem a gerou.  Significa dizer que somos responsáveis pelo que pensamos, sentimos, intuímos e desejamos. Além disso, em cada uma destas instâncias, o que vibramos tem poder de vida, porque damos sentido ao que qualificamos.
Aquilo que damos sentido torna-se crença, hábito, valor, comportamento. E são estes elementos que tecem a nossa personalidade, ou aquilo que a sabedoria tupi-guarani chama de “Nhanderekó“, que significa, “Nosso jeito de ser.”   Por isso é importante refletirmos sobre nossas crenças, valores, comportamentos e habitos, pois isto nos dará pistas de como estamos qualificando nossas vidas através de nossa própria consciencia.
Embora as situações externas do mundo, do ambiente, das conjunturas sociais e econômicas influenciem a nossa realidade, na mesma proporção a influenciamos de acordo com a nossa maneira de expressarmos a consciência. O nosso mundo interior tem predomínio sobre o mundo exterior, porque a vida se expressa de acordo com as nossas projeções internas. Por isso o grande desafio e ao mesmo tempo a chave para  a manifestação de melhor em nós é o autoconhecimento. Pois quanto mais nos conhecemos em suas diversas camadas e níveis de crenças e valores, temos mais clareza e condições de irradiar e expressar o que nos é mais digno.nificante, harmônico, prazeroso, saudável e próspero

domingo, 31 de julho de 2016

Demarcar os Territórios de nossa dignidade

Aqueles que me conhecem sabem que um dos meus principais trabalhos se relaciona diretamente com a natureza. A mais de duas décadas conduzo grupos de pessoas para as matas, através de trilhas e clareiras, em roteiros com o propósito de sensibilização, contemplação e de autoconhecimento. Sempre integrando á paisagens naturais, uma sabedoria ancestral, que convencionamos chamar de indígena, mas que vem de diversas culturas nativas brasileiras, predominantemente tupy e tapuia.  
Desde 1994 tenho abordado atividades pelo enfoque em valores humanos e cultura de paz, quando comecei na Fundação Peirópolis de Educação em Valores Humanos e na Unipaz; organizações que atuo até hoje. Estas instituições me propiciaram um aprofundamento em estudos nas tradições indígenas do Brasil e me deram a oportunidade de difundi-las em cursos, seminários e imersões.  
No entanto, além de professor e facilitador de seminários e cursos; desde meados dos anos oitenta, com o povo guarani de São Paulo, destino considerável parte do meu tempo em projetos sociais em comunidades indígenas. Os povos do sudeste e do nordeste também tem sido o meu foco de atuação e desenvolvimento de pequenos suportes, na grande maioria das vezes, voluntários.    
As comunidades indígenas de modo geral são extremamente dependentes de programas assistencialistas governamentais á décadas, e isto enfraqueceu não somente a identidade cultural, mas também a dignidade social de diversas etnias; influenciando diretamente em sua capacidade de sustentação econômica e ecológica. Quando percebi este quadro no fim dos anos oitenta, juntamente com amigos e depois com minha família, colocamos em curso uma série de iniciativas em direção á valorização cultural e geração de renda. Foi assim que passamos a fomentar apresentações culturais para os guaranis, kariris, pataxós. Estimulamos a gravação de CDs, produção de livros, inserção em seminários, fóruns, congressos.  E isto causou um choque em uma parcela da sociedade que via na época, início dos anos noventa, o índio como algo fadado á extinção, ou cuja cultura não poderia transcender os limites de seus modos tradicionais de vida.
Neste período alguns povos começaram a buscar alternativas sustentáveis e foram criando certa independência social. Este fenômeno aconteceu simultaneamente na Amazônia, no Nordeste, no Sudeste e nas áreas urbanas. E modelos se influenciaram mutuamente. Em minhas empreitadas pelas aldeias sempre coloquei a importância de aliarmos três causas: a questão da cultura, a questão da educação e a questão do ambiente. Entendia a cultura como uma qualidade imprescindível e local a ser cuidada, a educação como uma ferramenta de combate á distorções históricas em relação ás nossas raízes afro-tupi que geraram discriminações e desestruturações sociais; e o ambiente como um bem global a ser manejado com sabedoria e cautela. 
Com o passar do tempo, projetos e ações foram se realizando, e com isso veio alguns inesperados reconhecimentos. Em 2003 a Bovespa criou um braço de apoio á projetos ambientais para organizações do terceiro setor e me chamou para ser um dos doze conselheiros. Em seguida, 2005, a Ashoka Empreendedores Sociais, entidade de reconhecimento mundial, me honrou com a valorização e premiação da idéia que gerou uma nova tecnologia social voltada para as comunidades as quais eu trabalhava na época e que foi aperfeiçoada através do Instituto Arapoty.  Descobri que era um empreendedor social, ao unir equilíbrio ecológico, valorização de culturas e geração de renda. Fui chamado para falar disso em diversos países, como Estados Unidos (em San Francisco, Stanford), França (na UNESCO) e Inglaterra (Oxford) em ambientes de públicos diversos, como líderes religiosos, líderes do terceiro setor e empresários.
  Em 2010 a revista Trip reconheceu o conjunto de ações que desempenhava como transformadoras da sociedade, o que para mim e a equipe de trabalho que me acompanha á décadas, foi uma grata e feliz surpresa. Foi nessa época que comecei a achar que passava da hora de haver uma política pública que saísse de premissas assistencialistas para um novo paradigma; o empreendedorismo sustentável e cooperativo. Já havia algumas experiências de sucesso com o Instituto Arapoty, com aliados como Marcelo Rosenbaum, onde sou seu parceiro no programa social A GENTE TRANSFORMA e o Instituto Elos, onde á 14 anos formamos na ESCOLA DE GUERREIROS SEM ARMAS, um novo tipo de protagonismo juvenil com foco na cooperatividade e desenvolvimento de cultura de paz.
De 1994 á 2014 trabalhamos em mais de 90 pequenas comunidades: indígenas, rurais, favelas, cortiços, caiçaras, populações ribeirinhas; recuperando valores culturais e dignidade social. Foram mais de 10.000 famílias que se tornaram gestoras de sua condição econômica e cultural. Projetos realizados com muito voluntarismo, poucos recursos financeiros iniciais e muito respeito á diversidade. Estas iniciativas fecundaram em mim uma síntese de experiências passíveis de colaborar também em propostas de políticas públicas.


O projeto Territórios da Dignidade pretende justamente trazer a voz de líderes e comunidades indígenas para que a sociedade esteja atenta e se abra para acolher propostas de políticas dessas vozes e de nossas raízes. Mas basicamente que saia da condição de dependencia social  e assistencialismo para um empreendedorismo fundamentado no cuidado, manejo adequado de recursos, valorização de culturas locais para o resgate da dignidade de nossas raízes ancestrais.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

TEKOA: COMO TORNAR UM LUGAR SAGRADO

Esses dias recebi uma frase no facebook, atribuída á um biólogo, que dizia o seguinte: "se desaparecessem todos os insetos da Terra, em 50 anos a vida no planeta se exterminaria; mas se desaparecessem os seres humanos, em 50 anos toda a Terra seria reconstituída e renovada com toda a sua biodiversidade" . Não creio que há exageros nisso, realmente nós, seres humanos temos tido comportamentos terríveis em relação ao modo como interagimos com o espaço em que vivemos: seja ele o ambiente, o lugar onde moramos e também com as pessoas com quem convivemos.
Dizem alguns mestres de sabedoria que um espaço em desarmonia é resultado de uma mente em desarmonia. Uma casa em desarmonia é resultado de uma mente em desarmonia. Um corpo em desarmonia também é resultado de uma mente em desarmonia.Por isso, independente de ambientes sofisticados ou simples, ao cuidar do lugar, com gratidão e carinho, ele refletirá esse "clima". Assim também, quando arrumamos a nossa "casa" em todos os sentidos, estamos arrumando a nossa mente. Há uma sutil, profunda e misteriosa relação entre o mundo exterior e o mundo interior que devemos aprender, ou ter interesse pelo menos em fazê-lo.
Algumas tradições ancestrais estudaram profundamente essa relação, como por exemplo, a sabedoria antiga da China, na época do "Imperador Amarelo', Lao Tsé, etc. e a sabedoria tibetana, através do budismo, também expressa uma complexa e profunda relação de conhecimento dos mistérios da mente e do espaço. A tradição ancestral do Brasil, notadamente a tupi, deixou costumes e fragmentos de sabedoria em sua memória cultural, que nos leva a ter uma relação de equilíbrio entre a natureza exterior e a natureza interior. Além disso, deixou práticas de utilização de ervas, defumações, rezas, benzimentos que tem como propósito a manutenção do equilíbrio entre casa, corpo e mente. São conhecimentos milenares, simples, que primam pelo reconhecimento de que somos uma rede de inter-relações, ligados internamente por energias, que nos fazem irmanados com todas as manifestações de vida, do céu e da Terra. A tradição tupi, desmembrada na cultura guarani, cham de "tekoá", o lugar sagrado, puro, preservado em seu fluxo natural para trazer boas energias e prosperidade. E para mantê-lo sempre sagrado basta que cuidemos dele.