Pular para o conteúdo principal

A oca-escola de Kaká Werá





GILBERTO DIMENSTEIN

colunista da Folha de S.Paulo


O escritor Kaká Werá resolveu testar uma nova forma de ensinar a cultura indígena nas escolas: afastar os professores dos livros e fazê-los vivenciar mitos, cantos e danças dos índios num espaço que reproduz uma oca.
O espaço foi construído em Itapecerica de Serra, município vizinho a São Paulo, onde os professores estão sendo convidados a fazer uma imersão durante o final de semana. "Foi um dos jeitos que imaginamos de fazer com que os professores ensinem melhor, em sala de aula, os encantos da cultura indígena."Kaká Werá, 39, nasceu em Parelheiros, na periferia de São Paulo, onde ainda sobrevive um agrupamento de índios, e se transformou num educador para difundir valores universais da cultura indígena, como o respeito ao próximo, à natureza e ao conhecimento.

O que o motivou a abrir a oca-escola foram os livros didáticos. "Percebi que tudo sobre o índio, nos livros, aparecia no passado. O índio fazia aquilo, gostava daquilo, usava aquele adereço" —era, para ele, como se já tivessem, com esse tempo verbal, colocado toda uma cultura no passado, como se ela não fizesse mais parte do país. "Sem contar a maneira como fomos folclorizados, condenados ao exotismo."Ao se aproximar dos professores —e não apenas em rápidas palestras, mas em imersões—, ele imagina que, pela experimentação, os significados dos mitos farão sentido no cotidiano dos professores. "É pelo mitos que se registra a sabedoria." Essa sabedoria se mescla às danças e aos cantos.A própria estrutura da educação indígena é o que há de mais contemporâneo em ensino. Afinal, propala-se, por todos os cantos, que o ensino deve ser feito à base de observação e experimentação, mesclando o que se aprende na escola com o que se pratica no cotidiano, a partir de eixos multidisciplinares e interdisciplinares.

O conceito de aprendizagem permanente, tão difundido em todas as palestras de educadores, segundo o qual o professor é um orientador, um mestre de vivência, e não de decoreba, sempre foi o princípio das tribos —onde as crianças aprendem fazendo. Gilberto Dimenstein, 46, é jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo e faz parte do board do programa de Direitos Humanos da Universidade de Columbia (EUA). Criou a ONG Cidade Escola Aprendiz, em São Paulo.
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

NOSSAS RAÍZES PRECISAM SER RESPEITADAS

Kaká Werá fala sobre a questão indígena

Quatro atitudes de paz que nos tornam ricos

Não sabemos muitas vezes definir a palavra paz, mas quando a ouvimos, algo de bom ressoa em nossos corações. Onde há paz, há riqueza em todas as suas dimensões: social, econômica, ecológica, e pessoal.  Mas embora seja difícil definí-la, podemos pelo menos refletir sobre o que nos põe fora dela e o que nos aproxima, integrando-a. Na sabedoria ancestral são reconhecidas quatro atitudes que nos distancia de sua luz : A primeira atitude que a torna longe de nossa presença pacífica é a ideia de separatividade. Os mestres de sabedoria ensinam que somos uma só vida desdobrada em muitos, que embora tenhamos uma individualidade, em essência somos uma mesma respiração desa Vida. Mas criamos de nossas individualidades segregações, visões de mundo e sobre nós mesmos  que geraram conflitos diversos, que tem trazido desde tempos imemoriais toda sorte e graus de dificuldades nos relacionamentos e convivências. A  segunda atitude que nos distancia da paz é aquele aspecto julgador que habita em cada…