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Ministério até pra peixe. Já pro índio...

por Geraldinho Vieira

“A questão indígena é inspiração para todos os modelos que defendem qualidade de vida, eco-sustentabilidade e re-ligação do homem à terra e ao grande mistério. No entanto, a maneira como ela é abordada conduz, atualmente, para um olhar exótico e folclórico. A questão indígena está fragmentada em problemas ditos de minorias, mas diz respeito ao profundo humano que habita em nós”.

Kaká Werá Jecupé, 46, índio de origem tapuia ou txucarramãe, é escritor, professor, conferencista que já encantou platéias mundo afora, empreendedor social da Ashoka e um dos vencedores do prêmio Transformadores (promovido pela revista Trip).

Fundador do Instituto Arapoty (www.institutoarapoty.org.br), é com ele nossa conversa direta ao ponto deste domingo, décima-terceira desta série Eleições & Sociedade Civil – sobre o que lideranças sociais estão vendo e ainda esperam do processo eleitoral.

Pergunto a Kaká se a questão indígena ficará sempre estigmatizada num debate sobre futuro do Brasil ou ele vê esperança de um espaço adequado na agenda pública.

Guerreiro sem arma, nome que ganhou ao ser adotado pela aldeia guarani Morro da Saudade (periferia sul de São Paulo), Kaká Werá consegue ver avanços (“no atual governo”) em temas como a demarcação de terras e a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura indígena nas escolas, mas abre o verbo: “Existe um ministério de integração racial, mas há apenas a pauta do movimento negro. Existe um ministério até para o peixe, mas para a população indígena o que há é um órgão cambaleante, que não consegue pensar políticas específicas para a diversidade de povos indígenas incluindo aqueles que estão inseridos na sociedade urbana”.

Nota do redator: são 300 mil os índios aldeados hoje no Brasil, e quase o mesmo número de índios urbanos.

“Temos que ver o índio hoje em sua diversidade de manifestações: na floresta, na cidade, na escola, no mercado de trabalho...”, diz Kaká. E completa: “Não existe uma política que considere este índio inserido como um lumpen em plena selva de pedra. E, por outro lado, o índio da floresta está além de toda esta chamada civilização, está além de todos nós. O índio da floresta não esta poluído em nenhum grau, nem físico, nem mental e nem espiritual... há de se ter um olhar especial para ele, um olhar de cuidado e respeito.”.

Não há uma mobilização para que a vida desses 600 mil brasileiros esteja na agenda, questiono. Kaká concorda. Para ele, isto depende muito da capacidade dos líderes indígenas, dos indigenistas e dos ambientalistas que se ocupam também do tema. “A única candidata que expressa uma preocupação com esta questão é Marina Silva” – flagra.

- Como você vê o papel da imprensa no debate eleitoral como um todo e, de forma mais permanente sobre a questão indígena?

A imprensa, diz Kaká, tem procurado exercer o seu papel de provocar debates e colocar os candidatos diante da sociedade, “mas os candidatos à frente da disputa estão fazendo mais marketing do que exposição de propósitos. Em relação {a questão indígena, a imprensa deixa a desejar, pois ela trabalha ainda de uma maneira limitada e preconceituosa. Somente quando algum fato terrível ocorre....”.

Interrompo... para a imprensa vocês são “os selvagens”?

“Por exemplo, quando índios prendem estrategicamente pessoas para exporem seus conflitos... agora, sem esta tática a imprensa nem fala neles... Acaba passando a idéia de que índio vive usando pessoas como reféns para seus supostos interesses de pouco valor”.

Interrompo de novo, pensando em voz alta que os Sem Terra reclamam da mesma forma de tratamento por parte da imprensa...

“O problema em relação aos Sem Terra” - diz Kaká Werá - “é a sociedade conseguir separar o joio do trigo, ou seja, os Sem Terra são mais politizados, e existem aqueles que são politizados para uma atuação idêntica a esta política mesquinha. São os que na verdade defendem grupos políticos específicos para obterem bônus e recursos... digo isso porque vejo e não pelo que leio a respeito. E existem os inocentes, os pais de família, os trabalhadores da terra... estes estão no meio do fogo cruzado”.

Mas são todos colocados no mesmo patamar e tratados como "outros", quase alienígenas...

“A sociedade urbana, consumista, esquece que tudo vem da terra, alimento, tecnologia, roupa... Por vezes, a sociedade esquece que sem trabalhadores na terra não há continuidade de produção de tudo que necessitamos para viver, morar e vestir” – diz o autor de “A terra dos mil povos - História indígena do Brasil contada por um índio” (entre outros títulos).

Onde você arruma esperança de um dia ver Brasil mais inclusivo?

“O Brasil possui uma das maiores diversidades humanas, todas as raças estão aqui, podemos ser um modelo de nação inclusiva. O Brasil possui uma das maiores diversidades de ecossistemas, podemos ser um modelo de desenvolvimento sustentável. O Brasil possui um povo aberto à espiritualidade, podemos ser um modelo de supra-religiosidade”.
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