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Um tapuia na cidade

No início dos anos 90 tive o privilégio de compartilhar uma mesa redonda com Orlando Villas Boas no SESC de Santos, em São Paulo. Naquele momento eu e minha esposa, Elaine Silva, promovíamos ações de apoio á aldeia guarani de Boracéia, próximo á Bertioga, de caráter de prestação de assistência social. Fazia palestras sobre cultura indígena e as pessoas pagavam com alimentos que eram doados para as comunidades.
Na ocasião, Orlando narrou suas aventuras na histórica marcha para o Oeste e, ao saber que eu me posicionava como um servidor da comunidade guarani ele disse:
- mas você não tem cara de guarani, você tem jeito de txukarramãe.
- E o que é um txukarramãe? - Perguntei.
- É um guerreiro sem arco e sem flecha, pois eles não utilizavam estas armas.
- Então tudo bem, sou um guerreiro sem armas, um guerreiro da paz!!!
Desde então me posicionei como um servidor da paz; mas isto causou depois uma confusão em relação á minha origem étnica. Pois os jornais começaram a noticiar que eu era um txukarramãe, mas não no sentido figurado.
Na verdade nasci em São Paulo, na capital, na divisa entre a periferia e a mata atlântica da Serra do Mar, próximo á última aldeia indígena nesta região. Sou um índio urbano. No entanto, o destino me fez conhecer o povo guarani, cuja sabedoria fez-me re-encontrar com minhas raízes ancestrais.
Minha família migrou para a capital paulistana na década de sessenta, vinda do norte de Minas Gerais, e já eram desaldeados nesta época. No passado foram genericamente chamados de tapuia. Das tradições, mantinham os valores internos, a alma, e um cauteloso silêncio cultural. Meu pai queria que me tornasse letrado para sobreviver á selva de aço e pedra que crescia diante do lugar em que habitávamos, e assim foi.
Mas o coração e o tempo me levaram de volta para a aldeia. Convivi com os guarani, convivi com os Krahô, com os Kamaiurá, com os Xavante, com Krenak, com Pataxó, com Pankararu. Conheci parente do cerrado, da amazônia, da mata atlântica, da favela, da periferia.
Nos anos 90 iniciei um caminho de buscar apoio á determinadas comunidades. Depois me especializei na difusão dos princípios e valores da cultura de matriz tupy, e depois no desafio de buscar soluções sustentáveis e dignidade para estas comunidades remanescentes destas raízes, que não são somente minhas, mas do Brasil.
Casei, tive filhos, e minha esposa bem como minha família não só me apóiam, mas também realizam inúmeras atividades ligadas á esta causa. Somos um clã de paz, mas que luta, e novamente me vem a metáfora do txukarramãe.
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