Vejam um estudo genético sobre os pataxós

Eles podem usar roupas iguais às de outros brasileiros pobres e não falar mais a língua de seus ancestrais, mas os genes dos índios pataxós ainda são, em sua maioria, o de uma gente que pisou o chão da América dezenas de milhares de anos antes de Cabral. Essa é a principal conclusão de um estudo feito por geneticistas paulistas e baianos: a tribo pataxó, que ainda habita a região do Nordeste onde ocorreram os primeiros contatos entre europeus e índios brasileiros, continua a ter DNA majoritariamente indígena.

A nova pesquisa foi apresentada durante o 53. Congresso Brasileiro de Genética, que aconteceu nesta semana em Águas de Lindóia (SP). Uma equipe da USP de Ribeirão Preto e da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia analisou cerca de 180 indivíduos da etnia pataxó, distribuídos em seis aldeias da região sul baiana, perto de Porto Seguro. Os pesquisadores estudaram tanto a transmissão de genes pelo lado materno quanto pelo lado paterno dessa população, comparando-a com outros índios brasileiros e com pessoas de origem européia e africana.

Traçar o perfil genético dos pataxós não é só uma questão de curiosidade acadêmica. Aguinaldo Luis Simões, pesquisador da USP que orientou os trabalhos, explica que algumas pessoas chegaram a considerar que os membros da tribo não seriam mais indígenas, por causa dos traços de mistura cultural com a sociedade brasileira. O exemplo mais trágico desse tipo de avaliação é o assassinato do índio Galdino Jesus dos Santos, em 1997. Ele pertencia a um grupo aparentado aos pataxós, os pataxós hãhãhães, e foi morto por adolescentes de Brasília que atearam fogo a seu corpo, achando que se tratasse de um mendigo.

Além disso, "é um grupo cuja história não está bem contada", afirma Simões. Sabe-se apenas que o grupo, junto com outras tribos do sul da Bahia, foi fortemente afetado pelos conflitos entre índios e portugueses nos primeiros séculos da colonização. Em meados do século 19, uma tentativa desastrada de juntar todos os índios da área numa aldeia "unificada", independente da etnia a que pertenciam, acelerou ainda mais o processo de descaracterização cultural que fez os pataxós esquecerem o próprio idioma que falavam originalmente.
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