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Língua indígena "M'BIÁ" será patrimônio imaterial

Um dos primeiros grupos a estabelecer contato com os europeus, no início da colonização do continente americano, a população guarani resistiu ao processo de ocupação e domínio que dizimou os povos originários na região. Para sobreviver a este processo, uma das principais formas de resistência se deu pela preservação do idioma.

O rico repertório lingüístico utilizado entre os falantes da etnia Mbyá Guarani será reconhecido como patrimônio nacional listado entre os bens culturais imateriais, acervo de expressões simbólicas protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), instituição vinculada ao Ministério da Cultura (MinC).

Para isso, acaba de ser lançado um inventário sobre a língua dos Mbyá, durante encontro promovido pelo Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (Ipol), órgão responsável por executar a pesquisa e instituir o levantamento entre 69 aldeias dos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, áreas geográficas por onde se distribuem os integrantes desta etnia.

O levantamento sobre o sistema da língua Mbyá começou a ser realizado em 2009. Já o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), foi instituído pelo Decreto nº 7.387, em 2010. Este dialeto deriva do idioma Guarani, que está ligado à família Tupi-Guarani, que, por sua vez, pertence ao tronco lingüístico Tupi.

Para estabelecer parâmetros no contexto do plurilinguismo brasileiro, o INDL lançou seis categorias de língua, possíveis de serem inventariadas, a saber: 1) língua indígena próxima da extinção; 2) língua indígena de grande população e extensão territorial; 3) língua de imigração; 4) língua de comunidade afro-brasileira; 5) língua crioula; e, 6) língua de sinais.

O Guarani Mbyá situa-se nesta abordagem pela abrangência de seu uso. Para o levantamento deste idioma, o Ipol reuniu quase mil questionário de lideranças e chefes indígenas, além de recorrer a arquivos de banco de dados, pesquisa de campo, registro de imagens fotográficas, registro de lista de palavras, depoimentos audiovisuais e coleta de variados materiais.

De um modo geral, para o povo guarani a linguagem está intimamente vinculada à própria cultura, onde a língua e a palavra ajudam a moldar a ética, a conduta e a prática social deste grupo indígena. Para muitos estudiosos, o idioma, juntamente com a ancestralidade e os costumem são os três elementos principais da formação da identidade guarani, constituindo o “modo de ser” deste povo.

A preservação, difusão e reconhecimento do valor e da dimensão cultural da língua Mbyá, através das garantias e salvaguardas legais que dispõem os bens imateriais do patrimônio brasileiro, além contribuir para manter viva este dialeto, ainda irá ressaltar a importância da pluralidade lingüística existente no Brasil. Em nosso território, são falados mais de 200 línguas diferentes, entre as quais, 180 são indígenas, sem contar aquelas praticadas entre os falantes de grupos isolados.

De acordo com estimativas, durante a conquista e ocupação européia, havia no país cerca de mil e trezentas línguas indígenas. Os estudiosos agrupam as idiomas dos povos originários aos troncos Tupi, Macro-Jê e Aruak, reconhecendo, entretanto, o limite desta forma de abordagem, já que existem famílias que não se relacionam a nenhuma destas categorias e outras tantas línguas que nunca foram estudadas.

Os Guarani Mbyá mantém até hoje a plenitude e vivacidade de sua língua, que é transmitida principalmente por meio da oralidade. Para a maioria dos Mbyá mais velhos, o dialeto é a única forma de expressão verbal e, para um pequeno grupo de falantes, formado especialmente por jovens, há alguma fluência em português.

Os bens imateriais do patrimônio cultural brasileiro são definidos pela Constituição Federal como as práticas, habilidades e domínios empregados na vida social, manifestados através de saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas e nos lugares, como mercados, feiras e demais espaços onde se expressam as práticas culturais coletivas.

A partir de 2000, o Ipham adotou o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), que foi sendo testado e ampliado como principal instrumento da política de proteção aos bens culturais do país.



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(Guatá/Paulo Bogler/Com informações da Funai e do Iphan)
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