garimpo ilegal em terras yanomamis

De um lado, os garimpeiros ilegais, que desafiam a lei em busca de ouro. De outro, os donos da terra, os índios ianomâmi, que estão em pé de guerra. O Fantástico entra em uma região brasileira que é um campo minado, um barril de pólvora. De um lado, os garimpeiros ilegais, que desafiam a lei em busca de ouro. De outro, os donos da terra, os índios ianomâmi, que estão em pé de guerra. Obstinação de um lado. “Garimpeiro tem que ir, como a gente diz, na marra, na tora!”, diz o joalheiro José Lélis Sobrinho. E de outro, fúria. “Nós queremos não mais garimpeiros continuar na nossa terra”, defende o líder ianomâmi Arocona. No eldorado proibido no meio da selva, tudo o que reluz é confusão na certa. “Joia é fetiche, joia é glamour. Tem que ter ouro. Mesmo que venha de terra indígena, de qualquer lugar”, afirma o presidente do Sindicato dos Joalheiros, Ivan Colares. A alta do preço no mercado internacional está provocando uma nova corrida do ouro na terra indígena ianomâmi, em Roraima. Uma gigantesca reserva, do tamanho do estado de Pernambuco, onde só se pode entrar com autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai). Nos anos 1980, a região já tinha sido invadida por garimpeiros. Falava-se em 40 mil pessoas tentando enriquecer do dia para a noite. O contato com as aldeias provocou uma tragédia. Sem imunidade contra as doenças dos brancos, os índios morriam até pegando gripe. “Em alguns lugares morreram 30% ou mais da população. Em outros lugares, ninguém sabe. Algumas aldeias que a gente sabia que existiam simplesmente sumiram”, conta o missionário católico Carlos Zacquini. Expulsos nos anos 1990, os garimpeiros estão voltando agora. O fantástico foi procurá-los no meio da floresta. De Boa Vista até a aldeia de Kaianaú, uma hora e meia de avião, a única maneira de chegar até lá. Os índios contam que a primeira balsa garimpeira está a apenas dez minutos de barco, seguindo o leito do Rio Couto Magalhães. Na beira do Rio Couto Magalhães, o acampamento dos garimpeiros. Uma mulher que lava roupa leva um susto com a visita inesperada. “Eu apenas trabalho aqui. Sou uma mãe de família, apenas trabalho. Então, eu não vou dar reportagem nenhuma, me desculpa”, diz a mulher, que confirma estar em uma área de garimpo. Ela sabe que se trata de uma atividade ilegal. “Mas só que eu sou uma pessoa que tem família lá fora. Eu venho para trabalhar. Não posso dar reportagem. Vocês têm que me entender”. Mais cinco minutos rio acima, e a primeira balsa é avistada. O trabalho parou porque a balsa está avariada e precisa de conserto. Os três garimpeiros estão há um mês vivendo no local. O garimpeiro Sebastião Lopes conta que o grupo em redes dentro barco. Curiosos, os índios estão sempre à espreita. “Todo mundo aqui confia em todo mundo. A gente confia neles. Muitos deles confiam, outros não. Se fosse para eles matarem a gente, eles matariam”, diz Sebastião Lopes. O garimpo tem suas próprias leis. Uma delas é jamais revelar quem é dono do negócio. “Aqui não tem dono. O dono dessa máquina está na cidade. Por falar nisso, eu nem sei o nome dele. Vieram com a gente aqui. A gente saiu de noite, ninguém sabe nem por onde veio. Se fosse para voltar, nós não saberíamos. Tem um pessoal que vem aqui e leva a porcentagem. Ninguém nem sabe quem é”, afirma Sebastião Lopes. Ao todo, 60% ficam com o dono. O resto é dividido entre eles. Analfabeto, sem formação profissional, pai de dois filhos, Sebastião Lopes nem pensa em deixar o garimpo. “Se a polícia nos levar e nós pudermos voltar, voltamos”, diz. Mais um trecho de rio, outra balsa vagando a esmo. O que procuram? “Ouro. Ainda não achamos”, conta o garimpeiro José Orlando de Souza. O garimpeiro conta que o ouro que tem no dente foi ele quem achou, na Guiana Francesa. Quem zanza atrás de ouro não sabe o que é fronteira. “Fomos para a Guiana Francesa, a Guiana Inglesa e, depois, viemos para cá. Sempre com garimpo”, conta o garimpeiro Antônio dos Santos, que garante nunca ter ficado rico. Mas o ouro está lá, no fundo do rio. Em outra balsa, em pleno funcionamento, o garimpeiro Franco de Lemos mostra na bateia a razão de tudo isso: ouro. Franco de Lemos sabe que a atividade é ilegal e que está em uma área indígena. Perguntado se não se importa, ele responde: “Me importo sim, mas eu não tenho profissão. E eu preciso muito”. Um compressor rudimentar bombeia oxigênio para um mergulhador que está aspirando o leito do rio. “Tem um mergulhador lá embaixo. Ele fica três horas debaixo d’água e já está lá há uma hora e meia”, revela Franco de Lemos. Ao fim do trabalho, o mergulhador Charles está exausto. “É muito arriscado e é perigoso. É ilegal, mas é o meio que nós temos para sobreviver”, diz. Há sempre uma tensão no ar, mesmo que os índios não digam nada a eles. “Falta muito coisa para eles, mas eu acho que nós estamos aqui um pouco poluindo”, comenta o garimpeiro Antînio dos Santos. acredito que sim. Na aldeia de Papiú, as lideranças estão enfurecidas. Brandindo o machado, Joana Yanomami diz que os garimpeiros mataram os avós dela anos atrás e que voltaram agora para trazer mais doenças e matar mais índios. “Voltem para a casa de vocês, deixem a nossa terra em paz”, ela grita em ianomâmi. No Centro de Atendimento de Saúde Indígena em Boa Vista, 53 índios já estão internados com doenças que podem ter sido transmitidas por garimpeiros. No início do ano, a médica Rosimary Queiroz, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), constatou 19 mortes por malária em uma aldeia na fronteira com a Venezuela. Ela fotografou o atendimento. Para a médica, não há dúvida de que o mosquito da malária picou garimpeiros doentes e contaminou os índios. “Tinham facão. Nós observamos até arma lá dentro. Então, havia contato com o garimpo”, comenta. Outros quatro índios morreram após o socorro, chegando a 23 mortes de uma só vez. No ano passado, em todo o Brasil, o Ministério da Saúde só registrou 72 mortes por malária. Apenas três em Roraima. “Não tínhamos óbitos. E, de repente, nos deparamos com 23 óbitos que, para a comunidade deles representava mais de 10%. Isso é altíssimo. Isso é grave”, avalia a médica. A grande preocupação da Funai é com as aldeias de índios isolados que não têm contato com brancos e nenhuma imunidade contra doenças. “Existem garimpeiros muito próximos desses grupos isolados. Nós temos pistas de garimpo com acampamentos a menos de 15 quilômetros desses índios isolados”, revela o antropólogo da Funai Michel Ibris da Silva. A Funai identificou 110 pistas clandestinas de avião dentro da reserva Ianomâmi. Pelo menos 15 estão em operação. Uma delas muito próxima à aldeia dos moxi hateteme, um grupo de ianomâmis que não tem contato nem com outros índios. Os moxi hateteme foram filmados pela primeira vez em maio último. Em toda a reserva ianomâmi, há dezenas de garimpos de maquinário, que lavam o barranco dos rios com jatos de água em busca de filões de ouro, formando enormes clareiras no meio da selva. “Esse é o garimpo de maquinário. Dá para ver as pessoas trabalhando lá embaixo. Todas as comunidades ao longo do Rio Mucajaí consomem essa água, que tem alta contaminação e grande número de produtos químicos”, comenta Michel Ibris da Silva. Alguns desses garimpos são muito antigos, e já foram várias vezes desativados pela Polícia Federal. Mas os garimpeiros sempre voltam. “O mais importante é um trabalho de inteligência policial que consiga minar a logística do garimpo, porque quem está trabalhando aqui dentro é tão vítima quanto os indígenas. São explorados, são semiescravizados aqui dentro. Quem ganha dinheiro com o garimpo está lá fora”, destaca Michel Ibris da Silva. De acordo com o dono de garimpo Raimundo Geraldo da Rocha, são necessários R$ 200 mil para dar início à atividade. Raimundo Geraldo investiu e ganhou. “É uma questão de sorte. É um jogo. Um jogo alto. Arrisca-se até a vida nesse jogo”, constata. Durante muitos anos ele foi dono de balsas de garimpo na terra ianomâmi. “Eu, pessoalmente, nunca fui pego. Mas meus acampamentos foram destruídos três vezes pela polícia”, conta Raimundo Geraldo. Ele diz que desistiu, mas duvida que o garimpo acabe. “As pistas explodidas são recuperadas. É mais fácil recuperar a pista que repor o equipamento. Em 15 dias é possível recuperar uma pista dinamitada”, revela. “Colocar dinamite nas pistas não resolve nada. Estão gastando remédio com doente que já está condenado à morte”, comenta Ildefonso Garcia Lopes, conhecido como comandante Mineiro, piloto afamado. Mineiro revela que já levou milhares de garimpeiros para terras indígenas. “Graças a Deus, ganhei bastante dinheiro”, diz o piloto, que conseguiu comprar uma fazenda. Ele jura que não voa mais para garimpo, embora seja um negócio para lá de lucrativo. “Um dono de avião que voa para essa região, que é muito arriscada, deve faturar, com um aviãozinho que custa cerca de R$ 150 mil, entre R$ 60 mil e R$ 70 mil por mês. Tem vezes que fatura até um quilo de ouro”. Mineiro diz que a reserva ianomâmi é um queijo suíço gigante. “É muito grande. É muito difícil manter olhos vigiando para todo lado. Tinha que botar um soldado, um agente da Polícia Federal, em cada quilômetro para vigiar”, calcula. A Funai reconhece a ausência do estado na reserva e promete instalar bases de vigilância ainda este ano. “Quando não há a presença efetiva do estado democrático de direito é que essas pessoas que cumprem ilícitos se sentem à vontade, inclusive, para debochar muitas vezes da ação do estado”, comenta o presidente da Funai, Márcio Meira. O Ministério Público Federal chegou a denunciar 30 garimpeiros em Roraima. Ninguém foi preso. “A legislação penal é muito branda com os garimpeiros. Os garimpeiros, depois de denunciados, voltam a reincidir e retornam à terra indígena”, diz o procurador da República em Roraima, Rodrigo Timóteo da Costa e Silva. Em nota, a Polícia Federal diz que faz constantes operações de retirada de garimpeiros com a ajuda das forças armadas. Mas eles sempre voltam, justamente por causa das brechas na legislação. Pode até ser proibido, mas o ouro da terra indígena alimenta livremente o comércio. Até hoje uma avenida aqui no centro de Boa Vista é conhecida como a rua do ouro. Existem 40 lojas de compra de ouro e venda de joias registradas no Sindicato dos Joalheiros da cidade. Embora parte desse comércio aconteça à sombra da lei, ele é feito à luz do dia, sem que ninguém se preocupe em escondê-lo. “Se um garimpeiro chegar hoje da terra indígena ianomâmi com ouro para vender, eu compro. Eu e muitos compradores aqui. É ilegal, mas eu não me importo. Absolutamente. Medo de ser preso, todos têm. Mas tem quem prenda e tem quem solta. Tem advogado para soltar”, diz o joalheiro José Lélis Sobrinho. Agente aposentado da Polícia Federal, José Lélis agora é empresário do ramo joalheiro. Lélis diz que os índios são manipulados pelas organizações não-governamentais, mas que a legalização do garimpo é questão de tempo. “Tem colegas nossos que falam até mesmo em invadir, como ocorreu nos anos 1980. Mas ficamos controlando, dizendo para eles que estamos em processo de legalização”. Um projeto de lei regulamentando a extração mineral nas terras indígenas tramita no Congresso Nacional. O maior líder ianomâmi, o pajé Davi Kopenawa, conhecido até na Europa como o dalai lama da floresta, é radicalmente contra. “Acaba a floresta, acabam os índios. E depois a natureza vai brigar com vocês: muita chuva e muito
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