Quase dois anos depois da inauguração do trecho Sul do Rodoanel Mário Covas,
anel viário na região metropolitana de São Paulo, as três comunidades indígenas
que vivem próximas à rodovia - duas no trecho Sul e uma no Oeste - ainda não
receberam uma compensação pelo impacto socioambiental provocado pela obra nas
aldeias.
O acordo de compensação prevê a compra de mais terras para os moradores das
três aldeias. A Desenvolvimento Rodoviário (Dersa), responsável pela obra, já
fez um depósito em juízo de R$ 6 milhões, em agosto de 2010, com esse objetivo.
Mesmo assim, as terras não foram adquiridas.
O Rodoanel passa perto das aldeias de Krukutu e da Barragem, que ficam a 8
quilômetros de distância, em linha reta, do trecho Sul, e da aldeia do Jaraguá,
no trecho Oeste. Apesar de ter sido construído antes, a compensação para a
aldeia afetada pelo trecho Oeste foi determinada apenas durante o licenciamento
do trecho Sul. As três aldeias abrigam cerca de 1.200 pessoas em 54 hectares de
terras.
Embora seu modo de vida tradicional já sofra a influência da metrópole, os
indígenas têm a esperança que, de posse de mais terras, mesmo longe da capital,
possam preservar a sua cultura. A mudança esbarra na dificuldade de achar terra
adequadas ao modo de vida da população das aldeias. Quando as terras forem
encontradas, a mudança dos índios para as novas áreas será voluntária e as
aldeias antigas serão preservadas.
O depósito do dinheiro para a compra das terras foi feito em juízo por causa
da dificuldade na escolha das áreas. Segundo a Dersa, durante a discussão do
licenciamento a empresa apresentou duas propostas para a Fundação Nacional do
Índio (Funai), mas elas não foram aceitas. Uma foi a compra de áreas contíguas
às aldeias de Krukutu e Barragem, e outra, um terreno às margens da represa
Billings, em São Bernardo do Campo.
Em 2008, A Funai começou a procurar, em parceria com os indígenas, terras nas
cidades de Mairiporã, Eldorado e Apiaí, mas identificou problemas na
documentação das áreas, o que impediu a compra, explica Nuno Nunes, da Funai. A
antropóloga Maria Lúcia de Carvalho, responsável pelas visitas e pelo estudo dos
locais, explica que a disponibilidade de recursos para pesca e caça e área para
agricultura pesam na escolha.
Este ano, duas áreas de 2,7 mil hectares, situadas no Vale do Ribeira, região
sul do Estado, foram indicadas pela Funai e avaliadas pelo Instituto de Terras
do Estado de São Paulo (Itesp) para atender às duas aldeias do trecho Sul.
De acordo com a Dersa, a avaliação do Itesp, que envolve a verificação sobre
a regularidade da documentação e do preço adequado, está sendo analisada por
técnicos da empresa. O órgão não informou o município onde a área está
localizada, nem o valor das terras, para evitar prejuízos na negociação. Para a
comunidade do Jaraguá, uma área, também no interior do Estado, será avaliada
pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Segundo o cacique da aldeia da Barragem, Timóteo da Silva Vera Popygua, os
índios estão apreensivos com a demora. "Ainda não foi atendida a necessidade do
índio guarani. É um descaso tanto da Dersa quanto da Funai, um empurra-empurra
de responsabilidades", diz Popygua. O Ministério Público Federal também critica
a demora, mas reconhece que a Dersa está prestando contas, diz o procurador
Adilson do Amaral Filho.
A Funai queria que a licença de instalação do Rodoanel Sul só saísse depois
da compra das terras, mas segundo Amaral Filho, esse condicionamento não seria
recomendável, já que a compra depende de fatores que fogem do controle da Dersa.
"A questão dos prazos foi superada com o depósito do valor em juízo", diz o
procurador.
Após a compra das terras, a Funai reivindica que a Dersa faça um estudo para
realocação das tribos nas novas áreas e arque com os custos do investimento,
como a construção da infraestrutura de acesso e de saneamento básico.
Segundo a Dersa, o pedido da Funai está sendo estudado, mas essas ações não
estão previstas no acordo judicial, apenas "eventuais ônus para a aquisição,
além do preço, tais como tributos, corretagem, e regularização cartorial".
Para o Ministério Público, os gastos com a compensação aos índios devem ser
cobertos pela empreendedora do Rodoanel. "A Dersa tem responsabilidade por todos
os impactos que a obra causou. Tudo o que existe nas aldeias hoje, será preciso
ter também nas novas áreas", diz Amaral Filho. Segundo ele, é preciso primeiro
comprar as terras e ver se os R$ 6 milhões serão suficientes para cobrir os
demais custos, ou se será preciso mais dinheiro. "Ninguém disse que os R$ 6
milhões encerravam a compensação", diz o procurador.
0 comentários:
Postar um comentário
comente este artigo