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A questão da paz



Fico tentando entender como o chamado o mundo palestino, egípcio, árabe, ou africano conseguem aceitar em seu cotidiano tanta agressividade, tantos desastres e mortes, tantos conflitos e intervenções externas em nome de soberania, pátria, deus, poder, território, defesa de castas, dogmas, orgulho, supremacia e muitos outros motivos supostamente justos.  E no Brasil, “o novo mundo”, assim como nas Américas, tantos conflitos gerados a partir de inúmeros fatores de desigualdades sociais que por sua vez são tão contundentes e graves como nos velhos continentes. 
Fico tentando entender como entre as nossas famílias também se gera mágoas, distorções, ódios, dores e insatisfações.  E entre pessoas, mesmo aquelas que possuem vida econômica estável e status social considerável, frequentemente entram nas mais diversas situações de desarmonia. Digo isso observando a mim mesmo e as minhas relações pessoais e sociais; vendo como não é difícil desestabilizar as emoções e em determinadas circunstâncias gerar insatisfação, ou mesmo raiva, nervosismo, ou tons variados de agressividade.
Existe alojado em diferentes níveis de cada um de nós memórias de situações, coisas e fatos que causaram o oposto da paz. Seja na dimensão coletiva ou individual. Fico tentando entender tudo isso. Qual a causa dessa gama interminável de manifestações que se opõe ao estado pacífico? E a resposta que silenciosamente ouço é: você se afastou da sua natureza.
Não é a natureza étnica, nem a natureza cultural, nem tampouco a bucólica natureza dos diversos ecossistemas que se expressa em beleza diante dos nossos olhos. A clareza com que o silêncio disse foi: “ você se afastou da sua natureza essencial”.  Então perguntei, qual é esta natureza essencial? E a voz do silêncio disse:” a natureza do espírito. Você é espírito. Sopro vivo e luminoso. Emanação de uma fonte misteriosa e inesgotável em abundância de vida. Exatamente como tudo que existe. Portanto, quando entenderes de verdade que tudo se irmana, se iguala nas mais diversas diferenças, e comunga-se a mesma respiração, saberás o que é a natureza essencial."
A natureza essencial conduz ao estado de paz. Este, por sua vez, não é passividade e nem ausência de conflito. Ás vezes distorcemos o sentido da palavra paz e a entendemos como omissão, como inércia, e negligenciamos o aprendizado primevo e ancestral, que deveria ser o enraizamento em nossa natureza essencial, verdadeira fonte de onde emana a vida que se manifesta através de nossos pensamentos, palavras, gestos e ações.
A verdade é que vamos vivendo a vida de acordo com nossas crenças de escassez, de desafetos, de necessidades básicas, decorridos da ideia de separatividade da vida-fonte-única que foi introjetada em nossa consciência desde tempos remotos. Vivemos de acordo com nossas soberbas pessoais e coletivas, criando ideias de superioridade perante pessoas, povos, nações. Passamos nossas vidas correndo para atender necessidades de riqueza por não reconhece-la diante do nosso interior. Passamos a vida correndo atrás de amor, por não reconhece-lo antes de mais nada, em nós mesmos. Passamos a vida correndo atrás de posições sociais muitas vezes por insegurança e medo.  E o espírito da paz pede silenciosamente para recobrarmos a nossa natureza essencial, eternamente disponível em nossa própria respiração, em nosso próprio ritmo cardíaco, em nossos próprios passos quando passeiam pelos parques verdes, ruas silenciosas pujantes de horizontes entre belezas ímpares de nascentes e poentes. Quem já não sentiu o prazer da vida que a natureza espelha? Quem já não sentiu o bem estar em uma simples caminhada? Quem já não sentiu paz ao brincar como criança ou quando era criança? Em um abraço? Em mãos que se tocam? Sim, todas estas sensações não são desconhecidas para nós.
Muitos de nós acreditamos que o estado de paz é ocasional, fortuito, eventual e raro. Muitos de nós associamos a paz á um ganho, uma conquista, um premio, e até mesmo um dom. Na verdade é a estrutura de todo o universo, pois sem ela a rotação dos planetas, as estações da natureza, ou seja, o ritmo harmônico da vida não seria possível. A paz não é ocasional, ela é causal. A causa de toda inspiração e expiração da vida.  O grande dilema de nós, seres humanos, é que valorizamos tanto os estados de desarmonia, que acreditamos que eles se sobrepõem ao estado de harmonia. Tudo isso porque não reconhecemos e não cultivamos a nossa natureza essencial, que é paz.
Que a paz esteja conosco!
Eu sou Kaká Werá, eu falei.
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