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Aldeia Karioca é preparada para Rio mais 20

RIO - Índio quer trabalhar na aldeia Kari-Oca. Depois de uma viagem que durou três dias entre o Alto Xingu e o Rio — contando 12 horas de barco e o restante de ônibus —, 21 guerreiros tiveram que adiar a construção das ocas num terreno da Fiocruz, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá. O grupo chegou na noite de terça-feira, mas só no fim da tarde desta quinta-feira o trator da prefeitura apareceu para limpar o terreno, tomado pelo mato. Como se trata de área verde, o município dependia de licença ambiental.
Os indígenas, de quatro nações diferentes, estão preocupados com o tempo: são necessários pelo menos dez dias para a montagem das ocas, que precisam ficar prontas antes de 12 de junho. O espaço sediará eventos paralelos à Rio+20, de 13 a 22 de junho. Na noite desta quinta-feira, o secretário municipal de Conservação, Carlos Roberto Osório, informou que a licença havia sido expedida, permitindo a limpeza, que prossegue durante o dia nesta sexta-feira.
Até esta quinta-feira também faltava a liberação do dinheiro do Ministério do Esporte para alimentação e infraestrutura. Os índios almoçaram num restaurante japonês com sistema self-service, em Jacarepaguá. A conta foi paga no cartão de crédito de um funcionário da Fiocruz.
Eles trouxeram um caminhão de madeira pindaíba, usada na estrutura das ocas do Alto Xingu, em Mato Grosso. O sapê será daqui mesmo. O grupo trabalhará na construção de duas grandes ocas tradicionais, que delimitarão a arena para os rituais e apresentações. Uma delas servirá como entrada para a Kari-Oca.
— Para nós, não é difícil (construir as ocas). Essa casa aí é difícil para nós — disse nesta quinta-feira Paulo Roberto Alrria, de 42 anos, arquiteto da tribo Kamayurá, apontando para um galpão aberto dentro da área da Fiocruz. — A oca é melhor, porque lá dentro é sempre um pouco frio. Não esquenta.
Ele ainda está meio atordoado com o barulho da cidade, mesmo num dos lugares mais bucólicos do Rio. É a primeira vez que a maioria do grupo viaja à capital fluminense:
— Na minha aldeia não tem cidade perto. Fica longe. Não tem barulho de carro. Quando chega à cidade a gente fica com medo do barulho, não dorme direito — afirmou Alrria.
A primeira noite no alojamento da Fiocruz, com camas, foi difícil para o jovem Tukuman Kamayurá, de 23 anos, filho do cacique da aldeia:
— Na cama a gente fica assim, parado. Não tem o balanço da rede. Só fui conseguir dormir às 3h da manhã — contou o jovem líder, de penteado estilo Neymar e brinquinho na orelha.
No primeiro dia na cidade, os construtores nadaram no mar do Recreio. Eles agora querem conhecer as praias da Zona Sul e o Pão de Açúcar, além dos apresentadores William Bonner, Luciano Huck e Faustão. Na aldeia Kamayurá, com mais de 400 índios, a partir das 18h, quando o gerador é ligado, o programa é ver TV ao redor de um único aparelho. A energia acaba às 22h, com exceção das quartas-feiras, dia de jogo de futebol.
Apesar do isolamento, eles estão conectados ao mundo virtual. Prova disso é que o grupo trouxe na bagagem um iPhone, com o qual irão fotografar e filmar todas as etapas da construção da Kari-Oca, que terá uma oca eletrônica, high tech.
De acordo com Tukuman, as equipes trabalharão sete horas por dia, menos nos fins de semana, destinados a passeios na cidade. O arquiteto Araku Aweti, de 52 anos, queria sair à noite, mas está com medo de andar pela colônia. Ele também está incomodado com o fato de ainda não poder começar a trabalhar na construção:
— Não tem trabalho para nós, está demorando. Levamos dois dias para cortar as madeiras, mas a área (da aldeia) está suja. E não deixaram a gente roçar — reclama Aweti, um dos três arquitetos.
À frente da organização da Kari-Oca, o líder indígena Marcos Terena, do Comitê Intertribal, tentava ontem negociar o início dos trabalhos, já que os índios chegaram de surpresa, sem avisar dia e hora exatos. Segundo ele, a oca eletrônica e a da sabedoria, dedicada a líderes espirituais indígenas do mundo todo, serão mistas, com o aproveitamento de construções já existentes no terreno. O espaço dos sábios será montado próximo ao prédio da Fiocruz. Já a aldeia, por determinação da fundação, não poderá ser instalada na área onde ficou a Kari-Oca durante a Rio-92. A montagem será em outra parte do terreno.
Na área da antiga aldeia, ficará apenas o fogo sagrado, que será aceso no pôr-do-sol em 13 de junho, primeiro dia da conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável:
— Ele significa uma nova luz, que abre novos caminhos — afirma Terena.
A aldeia será palco de debates sobre questões polêmicas, como crédito de carbono e reservas minerais em áreas indígenas. Os diálogos produzirão um documento que será entregue à ONU em 17 de junho. Outro evento importante será o lançamento da primeira edição dos Jogos Mundiais Indígenas, em 2013, que ganhou o apoio do prefeito Eduardo Paes para que aconteça no Rio. São esperados na Kari-Oca 400 índios brasileiros, de 20 nações, e outros 1.200 estrangeiros, de países como Estados Unidos, Canadá, Nicarágua e Etiópia.

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