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Modelos de liderança: da ancestralidade e da modernidade



Quando se diz a palavra sustentabilidade dentro de um ambiente empresarial, imediatamente associa-se ao lucro como resultado para a manutenção e expansão do empreendimento, pois esta é a natureza de toda empresa. Mas quando se diz a palavra sustentabilidade de um ponto de vista maior na dimensão humana, é necessário pensar também na manutenção do equilíbrio do lugar onde ele habita; no modo como maneja, transforma, cria e utiliza os recursos que se tornarão produtos; e no modo como o ser humano se relaciona consigo mesmo e com o mundo.
Como a dimensão humana não está fora do ambiente empresarial, e o desafio deste momento é conciliar este dois aspectos: o empreendedor, que é um ser humano, e o empreendimento, que tem como um de seus princípios básicos a geração de riqueza.
 A empresa visa lucro através da venda de produtos e para isso é necessário haver consumo, esta é a lógica natural do empreendimento.  Os recursos primários que eventualmente tornam-se produtos frutificam do ambiente em que vivemos, este é o elo entre natureza e empreendimento.  A natureza, além disso; também é a nossa casa. Mais do que isso: é a casa da humanidade, dos animais, do reino vegetal, do reino mineral e inúmeros e incontáveis seres diversos.
Atualmente uma parcela da humanidade se dá conta que essa “casa”, é viva; e seus recursos obedecem á um ritmo para tornarem-se possíveis de serem extraídos e utilizados. Exatamente neste ponto há um descompasso gravíssimo entre o ritmo da natureza em produzir recursos e o apetite da humanidade em consumí-los. Segundo estudos, se continuarmos consumindo como o fazemos no ritmo atual, em breve período de tempo precisaríamos o equivalente a três planetas “Terra”. Além disso, existem determinados recursos que são finitos, outros se modificam com o passar do tempo, e outros que uma vez extraídos levam longuíssimos séculos para serem gestados e manifestados na superfície ou subsolo terrestre. 

Há uma relação histórica, social e psicológica entre determinados tipos de pessoas e o modo como os recursos naturais foram descobertos, obtidos e explorados ao longo da trajetória humana que pode nos ajudar a entender o dilema da sustentabilidade e da liderança. Os modelos e referências de líderes que se cristalizaram na sociedade contemporânea são decorrentes deste tipo de relação, que consiste no seguinte: o modo como recursos naturais são utilizados, nascem de uma mentalidade de exploração até a exaustão. É uma distorção de usufruto dos recursos causado pelo modo aventureiro e despropositado como lidamos com a nossa “casa” chamada Terra.  
Do ponto de vista arquetípico e histórico, as lideranças e ícones  do passado recente na civilização ocidental foram chamados de “conquistadores” e isto se dava pelo ato das conquistas de “territórios” e espaços onde se encontravam determinadas “riquezas” que na verdade eram “frutos” da terra em determinado ponto ou lugar que em determinada época era a “bola da vez” em termos de importância para consumo.
Foi assim com o “sal” que se tornou medida de riqueza, tornando-se o “salarium” a medida e o valor dos ricos e dos pobres, foi assim com o “louro”, associado depois á glória e riqueza, e também com a canela, a pimenta, a noz moscada, o cravo, o pau-brasil, as pedras preciosas, o petróleo, e chegamos ao absurdo fato de que, em alguns lugares, a água tornou-se comércio e adquiriu valor monetário. E, se a humanidade manter este paradigma de pensamento e de relação com a casa que habita, temos que prestar muita atenção para que amanhã não chegue em nossas mãos a conta do “ar” que respiramos.
O perfil destes líderes do passado ficou como modelo para todas as gerações subsequentes; tinham uma ação intrépida, mas uma visão fragmentada da vida. Além de personalidade aventureira. Normalmente não havia entre eles preocupações familiares ou comunitárias. Como desejavam as coisas que estavam distantes de seu lugar de origem, e como ambicionavam coisas fora da época delas germinarem, contribuíram de modo indireto para criar a idéia da escassez, que geralmente é associada somente ao inverno rígido de determinadas regiões provocando dificuldades extremas de suprimento. Foi essa idéia de escassez, que se relacionava ao ciclos do ecossistema europeu em seus períodos de inverno, que gerou o fenômeno da miséria e da abundância. Não por causa da escassez em si, que era um fato, mas por causa do modo como esta foi utilizada para valorizar e obter proveitosos lucros para uma minoria. Muito diferente por exemplo, da solução que encontrou a sociedade incaica, que guardava grãos para serem compartilhados entre sua comunidade nos tempos difíceis. 
 Foram estes líderes que se tornaram mitos do velho mundo, modelos para a civilização industrial e pós-industrial. O mundo contemporâneo os associa á, “desbravadores”, á “superação de limites”, á “competividade”, mas na verdade são em essência referências predatórias da própria espécie. Talvez, por isso, no reino da natureza o ser humano seja o único que é predador de si mesmo.
A partir desta mitologia do líder ocidental na atual sociedade pós-moderna, onde o consumo não é só de produtos, mas também de serviços, tecnologias, e etc; este modelo de liderança e esta idéia de escassez também persistem, não por necessidade, mas por osmose.  
Já o mundo ancestral, das antigas Américas e Áfricas não utópicas, e mesmo das Europas e Ásias mais distantes; e no entanto reais desde a noite dos tempos; havia um outro tipo de liderança e um outro tipo de empreendimento. Era o líder caçador, o líder pescador e o líder roçador.  Estes líderes não eram aventureiros, eles eram empreendedores sociais. Tinham famílias e pertenciam á uma ordem comunitária que incluía parentes diretos, indiretos e os de acolhimento. Caçavam para o grupo, pescavam para o grupo, plantavam para o grupo. Utilizavam os recursos naturais de acordo com a época da cada coisa, respeitava a sazonalidade, o ritmo, a pulsação da Terra. Eram visionários, místicos e intuitivos, pois faziam isso de acordo com a leitura da lua, do sol e das estrelas para saber o melhor momento de agir. Eram prósperos porque a comunidade era próspera e não porque eram melhores que alguém. E também porque seguiam o fluxo próspero da natureza. Esses líderes exerciam uma liderança sustentável e eram respeitados como portadores de eficiência, sabedoria estratégica, e visão holística.
Muitos destes líderes conheciam a si mesmos, os seus potenciais, as suas deficiências, as suas possibilidades. Existia uma cultura e uma educação para isso. Para tornar-se senhor de si, de seus temperamentos, de seu poder interior, de sua conexão com aspectos intangíveis do ser. Isto não é mito, é fato.  Existiram sistemas que preparavam estes líderes. Hoje tais sistemas são chamados de arcaicos.
Olhar a lua e saber o melhor momento de plantar e de colher. Olhar as estrelas e saber o melhor momento de partir. Seguir o sol conforme a estação. São sabedorias. São tecnologias. São ferramentas de relacionamento com o mundo interior e exterior.  Tais saberes não foram exterminados. Existem ainda hoje, embora fragmentados e dispersos. Existem de modo mais frequente em comunidades humanas mais próximas da natureza. Existe ainda um elo.
A liderança humana e a sustentabilidade podem caminhar juntas de novo. Mas para isso temos que retomar os estudos e pesquisas de antigas ciências contemplativas. Mas para isso temos que nos despir de poderosas distorções e preconceitos em relação á nossa ancestralidade. Temos que revisitá-la. Temos que conhecer a ancestralidade da qual se enraizou á força o Brasil, as Américas, as Áfricas e as Ásias utópicas e não utópicas. Revisitando as raízes mais profundas de nós mesmos, poderemos revitalizar e renovar essa grande árvore chamada humanidade. Revisitando o antigo podemos retomar força e clareza para o presente e criar harmoniosamente um futuro. Mas um futuro de verdade, virtuoso, e não virtual e fragmentado, como se apresenta hoje neste momento tão delicado e terrível desta atual civilização.







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