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Paradigmas de liderança e sustentabilidade

Estamos em uma época em que os modelos que dinamizaram e edificaram a sociedade humana tem que ser revistos para que possa continuar existindo sociedade humana. Para termos uma ideia, segundo pesquisadores e especialistas de recursos naturais e biodiversidade, para seguir-se o atual modelo de desenvolvimento necessitaríamos o equivalente a três planetas Terra para continuar havendo possibilidade de expansão econômica nestes critérios.
De modo que hoje não dá para falar em economia sem reconhecer seu impacto direto na ecologia e sem considerar a desestrutura social que seu modo de operar tradicional impõe no sistema de vida em suas mais diversas culturas e modos de expressão. Isso tem levado á sociedade á repensar sua visão e sua prática em relação á questão da sustentabilidade.
Quando se diz a palavra sustentabilidade dentro de um ambiente empresarial, imediatamente se associa a geração de lucro, pois esta é a natureza de toda empresa que quer manter-se e expandir. Mas quando se diz a palavra sustentabilidade ampliando-a para a dimensão humana e a rede interdependente de vidas que habitam o planeta, é necessário pensar na manutenção do equilíbrio do lugar onde ele habita; no modo como maneja, transforma, cria e utiliza os recursos que se tornarão produtos; e no modo como o Homem se relaciona consigo mesmo e com o mundo.  
Isto porque a dimensão humana não está fora do ambiente empresarial e o desafio deste momento é conciliar este dois aspectos: o empreendedor, que é um ser humano, e o empreendimento, que tem como um de seus princípios básicos a geração de riqueza.
A empresa visa lucro através da venda de produtos e para isso é necessário haver consumo, esta é a lógica natural do empreendimento.  Os recursos primários que eventualmente tornam-se produtos frutificam do ambiente em que vivemos, este é o elo entre natureza e empreendimento.  No entanto, a natureza, além disso; também é a nossa casa, a nossa provisão, a nossa prosperidade. Mais do que isso: é a casa dos animais, do reino vegetal, do reino mineral e inúmeros e incontáveis seres diversos.
Atualmente uma parcela da humanidade se dá conta que essa “casa” é viva e dinâmica; e seus recursos obedecem a ritmos diversos para tornarem-se possíveis de serem extraídos e utilizados. Por isso, embora seja uma redundancia, vamos aqui falar de uma ecossustentabilidade, para diferenciar desta idéia de sustentabilidade exclusivamente capitalista.
Exatamente neste ponto há um descompasso gravíssimo entre o ritmo da natureza em produzir recursos e a voracidade da humanidade em consumi-los. Além disso, existem determinados recursos que são finitos, outros se modificam com o passar do tempo, e outros que uma vez extraídos levam longuíssimos séculos para serem gestados e manifestados na superfície ou subsolo terrestre.
Há uma relação histórica, social e psicológica entre determinados tipos de pessoas e o modo como os recursos naturais foram descobertos, obtidos e explorados ao longo da trajetória humana que pode nos ajudar a entender o dilema da sustentabilidade. Os modelos e referências de obtenção de matéria prima para que esta se transforme em produto que se cristalizaram na sociedade contemporânea foram decorrentes deste tipo de relação, que consiste no seguinte: o modo como recursos naturais são utilizados, nascem de uma mentalidade de exploração até a exaustão.  Além disso, tem sua origem em culturas predominantes europeias que enfrentavam longos períodos de escassez devidos á ecossistemas de rígidos invernos.
Podemos afirmar que a natureza, por si só, se desconsiderarmos a presença do Homem, é ecossustentável.  Ela se equilibra, se auto-regula, se reconstrói; ela diversifica, inova, vitaliza e regenera seu principal “ativo”, a vida.
Algumas culturas humanas, no entanto, desenvolveram-se de um modo diferente dos modelos que resultaram a atual civilização. No Brasil ancestral, por exemplo, o modo como povos se relacionaram com os recursos foi diferente. É o caso da tradição tupi-guarani, que através de um tipo de saber relacionado ao domínio da sazonalidade de frutos, caça, pesca e plantio; movia-se por diversos ecossistemas, habitando sempre na linha e no fluxo da abundância de cada lugar. A partir daí, ela desenvolveu o hábito de consumir o necessário para cada momento e de acordo com a disponibilidade do que se produzia a cada época.  Ou seja, o individuo tinha uma relação com o produto de consumo baseado no princípio do que eu chamaria de correta oferta e correta procura.  
Outra questão é o modo como se operava o trabalho. Chamado pelo nome de puxirum, ou mutirum, ou motirom, posteriormente aportuguesado pelo nome mutirão; o trabalho tinha o enfoque no cooperativismo. As atividades cotidianas: construção, roça, pesca, artesania, culinária, caça, festas, ritos e celebrações eram realizadas através de divisão de tarefas a partir de um consenso coletivo e integrativo. O ritmo de trabalho não era ditado pelas horas, mas pelas tarefas realizadas.  Sem exaustão ou estress.
Outro ponto á considerar é justamente o ambiente. O espaço em que a aldeia se instalava. Havia a clara noção de que o espaço deveria ser mantido de modo á não desestabilizá-lo.  Na crença tupi-guarani todo espaço natural é um complexo de vidas que assume um tipo de consciência própria, chamado de “tekoá”, e saber lidar com esta sagrada consciência era sinônimo de abundância, saúde e harmonia.
Por fim, na filosofia ancestral, havia o reconhecimento de que a vida é interdependente, ou seja, cada ato de um indivíduo tem consequências no coletivo humano, nos reinos da natureza e nas gerações futuras.  
O desafio do inicio do século XXI, justamente para haver século XXI é reconsiderar sua idéia de riqueza, em uma equação que equilibre os diversos aspectos do capital, do social e do ambiental, levando em conta que o desenvolvimento da civilização deve partir de um envolvimento sustentável.




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