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Crônica da árvore

O centro desta cidade é como o de qualquer  lugar superpopuloso do mundo. Avenida principal entrecortada por suas ruas coadjuvantes entre espaços transversais. A velocidade lenta dos milhares de carros diários nas suas vias. Nas calçadas algumas centenas de passos rápidos passando nervosos ao lado de lojas, lanchonetes, bares, ouvindo sons de todos os tipos. Há uma praça matricial. Cercada de pequenas trilhas de acesso, bancos, pombos, vasos e mais gente. 
Há uma árvore nesta praça. Ela tem mais de quarenta anos.Há uma pequena vegetação no seu entorno: vasos com flores. Há insetos que circulam. Há pássaros que visitam-na. É por ali que os mais velhos gostam de ir e sentar-se, no frio ou no calor. Ela tornou-se o centro da cidade, há uma rotatória em torno dela. Ela mede o ritmo do dia pelo vai-e-vem dos automóveis circulando; como se o tempo passasse ao seu redor e ali fizesse obrigatoriamente a curva para o entardecer.E quando cai a noite as luzes se acendem em volta dela.
Essa árvore viu as ruas sendo criadas nas suas proximidades, viu casas se erguendo, viu pessoas se multiplicando em passos ao longo dos tempos por ali. Essa árvore cresceu vendo a cidade crescer. E as casas surgiram para que as crianças pudessem ficar próximas de sua sombra.
Uma vez houve um cidadão que quis homenageá-la com uma placa de bronze como símbolo  municipal, mas a população se dividiu entre prós e contras. Tempos depois um determinado político quis derrubá-la por representar um estorvo ao progresso que avançava, mas vieram a reação dos jovens e a defenderam.
Um dia houve um evento cultural naquela praça; era uma exposição de fotografias de memórias do bairro. Então, entre dezenas de fotos havia uma, antiga, onde uma pessoa regava uma muda que acabara de plantar; era a dita árvore, bem naquele mesmo lugar. No painel da exposição, via-se a paisagem, um chão de terra amarelado pelo tempo da foto trazia a dimensão da nostalgia. Havia um contraplano deserto percebido pelos olhos de quem via a cena congelada na fotografia, onde pouquíssimas pessoas na situação impressa no papel  formavam o quadro completo daquela imagem. 
Foi quando um visitante da exposição viu a foto e reconheceu o sujeito que plantou aquela muda, era o Zé. Sim, era o Zé caipira plantando aquela que viria a ser a "Senhora verdejante da praça". Assim que constatou que era seu amigo, foi logo dizendo:

- Tá vendo Zé, se o cê num tivesse plantado essa árve, num tinha vindo esse povaréu todo pra cá.

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