Kaká Werá é o candidato do PV ao senado por SP.

Pretendo ser a “ponte” entre índios e brancos para defender as causas ambientais e indígenas. Aprendi com os mestres Alcebíades Werá, Danielle Mitterrand e Dalai-Lama o jeito certo para isso

EM DEPOIMENTO A VINÍCIUS GORCZESKI
24/05/2014 13h00 - Atualizado em 24/05/2014 14h18
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NA SELVA Kaká Werá no instituto Arapoty, em Itapecerica da Serra. Em meio à mata, ele ensina a cultura indígena aos jovens (Foto: Arquivo pessoal)
2014, São Paulo, Brasil
Fazia um mês que eu andava nu pelas terras do Tocantins com os índios craô, quando fui literalmente “empenado”: me cobriram com uma seiva de planta que serviu para colar milhares de penas de gavião por todo o meu corpo. Durante três dias, só pude tocar os pés no chão para fazer necessidades básicas. Nas demais horas, ficava sobre uma rede. Ao fim do prazo, uma senhora me pôs em suas costas, correu metros até o Rio Tocantins e me atirou ali, onde me estatelei. Eu nascia um craô, e meu nome na tribo tornou-se Txutk. A vida lá era incrível. Não queria voltar a São Paulo, mas Akotok, o cacique da aldeia, me avisou: “Você tem de voltar. Você é um parri!”. Parri é quem faz a ponte entre nós, os povos indígenas, e o mundo dos cabeças duras, os homens brancos. Parri também defende os índios, mesmo à distância. Era 1995. Aceitei a missão de ser parri. Foi assim que encarei minha pré-candidatura ao Senado pelo PV (Partido Verde) paulista neste ano – a primeira vez que um índio ensaiará tal empreitada no Brasil.
Não desejei ser pré-candidato a senador. No PV desde 2010, essa história começou em abril do ano passado, quando nós, índios, invadimos o Congresso contra a PEC 215. Por ela, a palavra final sobre a demarcação de terras indígenas caberia ao Congresso, não mais à Presidência. Ali, índios do Brasil e políticos do PV conversaram e concordaram: era necessário que índios se aventurassem na política em 2014. No mesmo ano, ganhei do PV um cargo na executiva estadual paulista para representar os índios. Numa reunião sobre eleição no ano passado, falei que, se o partido quisesse ser diferente, precisaria apresentar candidatos diferentes – negros, homossexuais, mulheres, índios. Os colegas gostaram da ideia. Em janeiro, a maioria quis que eu fosse o pré-candidato ao Senado, embora no início eu tivesse pensado em concorrer à Câmara Federal. Neste ano, haverá só uma vaga por Estado em disputa no Senado. O desafio será enorme. Na ocasião, me lembrei do Mário Juruna (primeiro e único deputado federal índio, entre 1983 e 1987, morto em 2002), criado numa aldeia juruna, e o choque que a urbanidade lhe causou. Seu mandato fortaleceu os índios na política, mas fiquei receoso.
Quando a campanha vier, darei voz às causas indígenas e ambientais. Tirando a demarcação das terras, elas são causas globais. Um exemplo é a forma como exploramos o solo, sem o manejo sustentável. Outra questão são águas e sua contaminação. Há também as florestas, que se tornam a cada dia terras opacas, sem vida. Não devemos deixar de desenvolvê-las, devemos ser mais equânimes em seu uso. Para isso, é crucial investir na educação. Se formos ver, não são questões tão indígenas assim. São de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Nova York. São do mundo e planetárias.
Kaká Werá
Nascido em 1º/2/1964, em São Paulo (SP), viveu na juventude com os guaranis de Parelheiros, bairro da capital paulista. Ativista ambiental, é o primeiro pré-candidato ao Senado Federal de origem indígena
Por morar perto dos guaranis, eu os visitava, sobretudo depois da morte de meus pais – minha mãe aos meus 9 anos, meu pai aos meus 17. Em 1980, por eles fui adotado e com eles convivi por uma década. Nascido índio com nome de branco, Carlos Alberto dos Santos, fui rebatizado pelo cacique Alcebíades Werá como Werá Jecupé em 1986, aos 22 anos. Alcebíades era um velhinho surpreendente. Cultivava a terra para ter o que comer, fazia artesanato e não dependia de ninguém, o contrário de todos os demais guaranis da aldeia. Entre 1988 e 1990, ele me ensinou e me salvou. Primeiro, disse que o guarani deveria resgatar a capacidade de viver da terra. Depois, quando um ônibus me atropelou, e os médicos me avisaram que o susto passara, mas as sequelas ficariam, ele fez um ritual. Macerou ervas, fez fogo, cantou e chacoalhou maracas. Em dois dias, eu estava curado. A partir daí, tornei-me seu discípulo e aprendi a resgatar uma identidade e a explicar à sociedade a influência da cultura indígena no Brasil. 
Na escola pública, onde eu era o único índio, ninguém implorava mais por futebol que eu por contistas ou prosadores. Devorava livros de Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Rubem Braga. Escrevi em 1992 Todas as vezes que dissemos adeus. Nele, conto a história de um índio que sofre com a interferência urbana de São Paulo nos costumes indígenas. É minha história. Aos 50 anos, tenho cinco livros publicados, letras de música e peças de teatro. Alguns em prosa, outros em versos. Alguns em português, outros bilíngues em guarani, todos sobre fábulas e todos sobre índios.
Sou “auto de data”, minha formação é de vida. Comecei meu trabalho percorrendo escolas para nelas falar sobre a cultura indígena. Trabalhava na Secretaria da Cultura de São Paulo. Luiza Erundina era a prefeita (1989-1992), e Marilena Chaui a secretária da Cultura (1989-1992). Eu, um faz-tudo. Transformamos a Casa do Bandeirante, um patrimônio histórico, na Embaixada dos Povos da Floresta, dirigida pelo índio Ailton Krenak. Pensamos em colocar professores índios nas escolas, mas aí veio (Paulo) Maluf (prefeito paulistano de 1993 a 1997), e os índios caíram na invisibilidade.
Kaká Werá (Foto: Arquivo pessoal)
Nessa época, eu frequentava a extinta livraria Belas Artes, na Avenida Paulista, e ali ouvia palestras de José Genoino e José Dirceu. Achava os discursos coerentes, fui simpatizante do PT. Ambos falavam de assaltos a bancos ou sobre a necessidade de pegar em armas para colocar em prática suas ideias. Nunca concordei com essa parte. Depois, me decepcionei muito com tudo o que aconteceu. Jamais me aliaria ao PT. Criei o Instituto Arapoty, em 1998. Somos poucos, e quem nos ajuda é voluntário. As verbas pingam de parcerias ou pela lei de incentivo cultural. A sede fica em Itapecerica da Serra, em São Paulo. Há três ocas rodeadas pela mata e nada mais. Numa delas, agrupamos crianças, jovens e professores, que lá dançam, cantam e pintam como índios. O trabalho nas aldeias percorre o Sul e o Sudeste do país, e a dificuldade é sempre a mesma. Como a Funai os ajuda por meio do assistencialismo, quando chegamos aos povos, eles nos pedem tudo. Ouvimos e depois perguntamos: “O que vocês podem nos dar? Qual é a cultura que vocês mantêm e como podem usá-la de forma sustentável?”. Desde 1998, trabalhamos com 17 povos, ou cerca de 10 mil índios. Nunca consegui muito apoio da Funai, tampouco os índios. Faltou ajuda também dos presidentes: FHC não fez nada pelos índios, Lula tampouco. Mas ambos fizeram muitíssimo pelos latifundiários e pelos invasores de terras indígenas.
Fiz consultorias a empresas e viajei o mundo. Marcou-me quando fui à França, em 1999. A organizadora de um evento nos levou para descansar numa casa de campo no sul da França, e era a casa de Danielle Mitterrand! (primeira-dama da França de 1981 a 1995, morta em 2011). Danielle nos recebeu com muito carinho. Em 2003, ela me convidou para fazer palestras sobre a cultura de paz, na França, ao lado do líder espiritual tibetano Dalai-Lama. À mesa, tímido, troquei com ele poucas palavras. Meus amigos dizem que eu deveria ser mais radical nas causas indígenas. Meu trabalho sempre enveredou para a cultura e a paz. Me lembro do Dalai-Lama. Ele é minha inspiração de vida.
A candidatura ao Senado caiu em minhas mãos, e a encaro como uma forma de contribuir para as causas ambientais e indígenas. Tenho 50 anos, 30 deles dedicados a isso. Quero ser a ponte entre índios e brancos. Tenho dinheiro? Não. O partido investirá? Não sei. Temos condições de ganhar? A ver. O importante é sempre o diálogo.

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