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Um senador índio

Como uma invasão ao Congresso, um ativismo ambiental e um batismo de penas de gavião contribuíram para que Kaká Werá aceitasse ser candidato ao Senado Federal. Ele será o primeiro índio a disputar uma vaga, por São Paulo

VINÍCIUS GORCZESKI


NA SELVA Kaká Werá no Instituto Arapoty, em Itapecerica da Serra. Em meio à mata, ele ensina a cultura indígena aos jovens (Foto: Rogério Cassimiro / ÉPOCA)

O índio Kaká Werá era seguido por três curiosos no meio da mata densa, vasta e montanhosa de Itapecerica da Serra, a 48 quilômetros de São Paulo, para começar um ritual sagrado. Ao aproximar-se da oca ao estilo guarani, construída em 1998 com a ajuda de mais 38 braços, ele afastou um emaranhado de piaçava, passou pela abertura de meio metro e, à penumbra e ao silêncio agourentos, foi prontamente questionado por um dos homens brancos: “Não entra bicho aqui?”. “Só os amigos”, disse Kaká, de pronto e tranquilo.
Kaká sentou-se sobre um toco de tronco. Como mágica, as cigarras silenciaram. Num agitar de mãos, fez-se fogo a partir de palha e lenha seca. A temperatura subiu enquanto o sol caía por entre as colinas que se perdiam de vista. E Kaká Werá, maracas empunhadas em mãos, começou a entoar e a repetir lentamente os versos de um cântico guarani: “Nhanderu Tenondé / Oikwa Mawi / Nhamandu Jeguaká e Aê / Ogueró Porandú / Jaguatá Má Mamberú...” E fez-se silêncio. “O grande mistério já promulgou tudo para a nossa alegria e para o nosso bem estar. Só precisamos andar de cabeça erguida, e caminhar sempre para frente”, Kaká explica o cântico, pensativo e encucado.
Talvez Kaká tenha mais motivos para buscar a autoconfiança do cântico que aprendeu na adolescência. Recentemente, uma missão inusitada caiu em suas mãos nem ele sabe bem como: a pré-candidatura ao Senado pelo Partido Verde nas eleições deste ano. Ele será o primeiro índio candidato ao Senado na história do Brasil, em outubro, e num estado onde índio parece assunto de índio – São Paulo.
Kaká Werá é um índio tapuia, uma miscigenação de povos que vive no interior do Brasil. Seus cabelos são permanentemente cortados à tigelinha, e seu grisalho é a única coisa que denuncia seus 50 anos. Sua pele bronzeada, sobretudo a do rosto, é áspera. Pensa que mede 1,70 metro de altura e acha que pesa 85 quilos. Nascido em São Paulo, casado com Elaine Silva, 52 anos, com três filhas - uma do casamento, duas de Elaine -, não é um índio folclórico: dá palestras, detesta o trânsito paulistano e lê livros como formigas devoram roseiras (tem dúvidas se gosta mais de Gabriel Garcia Márquez ou de Jorge Amado). Criou em 1998 o instituto Arapoty, para difundir as tradições indígenas com jovens e para ajudar aldeias do sul e do sudeste do país a trabalhar de forma sustentável. Também dá aulas em centros culturais públicos do estado a jovens, e a pós-graduandos ele ensina valores indígenas na Unipaz, Universidade Holística da Paz, embora sua formação seja de vida, e não de universidade. Costuma entremear histórias contadas num ritmo veloz com uma lentidão típica. “É meu maior defeito”, ele diz, embora não pare um fim de semana em casa por conta da rotina que agora inclui reunião política semanal.

Kaká Werá faz apresentação de dança em Itapecerica da Serra. Mais de 2.000 jovens aprendem a viver como índios ali, todo ano (Foto: Arquivo pessoal)
Como o ativista Kaká tornou-se o pré-candidato a senador poucos sabem. A ideia começou em abril do ano passado, quando líderes indígenas do país invadiram o Congresso de arco e flecha voltados para os parlamentares. A razão da revolta foi uma proposta de emenda constitucional que daria ao Congresso – e não mais à Presidência – o poder de definir a demarcação de terras indígenas no Brasil.
Em meio à confusão, o Partido Verde e as lideranças indígenas reuniram-se, e do encontro saiu uma ideia ainda mais inusitada para os padrões políticos brasileiros - por que não estimular as candidaturas indígenas nas eleições de 2014? A ideia permaneceu em gestação enquanto Kaká assumia um cargo na executiva estadual do partido ainda em 2013, em São Paulo, onde nasceu, estudou, e tornou-se ativista da causa indígena e ambiental, para representar suas origens dentro do PV.
Numa das reuniões, foi sincero (o que lhe é marcante: “Esse é o problema da política, não? a Marina Silva – que é vice na pré-candidatura a Presidência de Eduardo Campos, do PSB - era a candidata ideal... mas estamos com o Eduardo Jorge – pré-candidato a presidência pelo PV -, que é um nome muito preparado”). Disse às 20 lideranças paulistas ali presentes que, se o partido quisesse apresentar-se diferente nas eleições de 2014, candidatos incomuns deveriam ser apostas nas urnas. Seriam eles gays, negros, mulheres e, claro, índios. Com isso, ele afirma, não estava sugerindo seu próprio nome. “A princípio, pensei em me pré-candidatar a deputado federal.” Mas a cúpula do partido ouviu com bons ouvidos sua proposta e em janeiro deste ano anunciaram num encontro fechado que ele seria o pré-candidato do partido para a disputa paulista ao Senado, após grande aprovação interna.
A princípio Kaká surpreendeu-se, pestanejou e questionou a notícia. Mas não adiantou. Do presidente do PV em São Paulo ao dirigente nacional do partido, não houve quem não o apoiasse, exceto ele mesmo. “Chegou a hora de pensarmos nos primeiros habitantes deste país”, disse Carlos Camacho, líder do PV paulistano. “Ele será sim o nosso pré-candidato ao Senado – e por unanimidade”, afirmou José Luiz de França Penna, presidente nacional do partido. Kaká, convencido pela maioria, aceitou a missão.
Antes dele, Mário Juruna, eleito deputado federal pelo PDT fluminense entre 1983 e 1987, fora o primeiro e único índio na história do país a fazer campanha e, eleito, legislou no Congresso. A missão de Kaká e a ideia do PV são mais ambiciosas. Neste ano, apenas uma vaga estará em disputa pelos candidatos ao senado por estado. E há pré-candidatos fortes, como Henrique Meirelles, pelo PSD, ex-presidente do Banco Central. Sem falar em nomes como o de Eduardo Suplicy (PT), há quase três décadas no Senado.
A pré-candidatura de Kaká causou reações curiosas entre seus amigos:
- E se o Kaká se tornasse um político?
-  Ah... não sei tem bala. Campanhas bilionárias... acho que não. Se tiver, será campanha pobre. Só para constar – diz Mário Mantovani, presidente da SOS Mata Atlântica, cujas filhas estudaram com as filhas de Kaká em Embu das Artes no passado.
- Ele é pré-candidato ao Senado pelo PV.
- Nossa! Se ele fizer isso vai engrandecer muito, porque a política está muito pequena hoje. O perfil dele será muito alto na política – diz Mário Mantovani.
Reação parecida demonstrou João Jardim, diretor do filme Getúlio, em cartaz nos cinemas brasileiros, amigo de Kaká há 15 anos:
- Na política? Não sei. Naturalmente não é um perfil adequado.
(Descobre que Kaká é pré-candidato ao Senado):
- Nesse ponto seria genial, um nome lindo. Ele tem uma visão muito pragmática das coisas. Certamente poderá se sair bem. Mas admito que quando você falou, pensei que era para ser candidato a vereador em Itapecerica da Serra.
As impressões dos amigos levam a crer que Kaká e a política não se misturam, como brancos não se misturam com índios. Mas desde que tinha uns 16 anos, Kaká Werá amassa barro atrás de gente branca para reforçar a cultura indígena nas escolas e nas aldeias – literalmente.
Foi por volta dessa adolescência, em 1980, que ele passou a conviver com os guaranis que viviam numa diminuta comunidade em Parelheiros, bairro paulistano. Levado por um amigo a visitá-los, eles encantou-se com as tradições de cânticos, rezas, ritos de cura, pescas, e pelas histórias narradas sob as nuvens de estrelas e sobre o fogo das fogueiras. Sua convivência com os índios intensificou-se quando seus pais, Miguel e Maria – índios Kaitité e Kaxixó, respectivamente – morreram. Miguel aos seus 17 anos, Maria aos seus 9. Os pais de Kaká tinham um pouco de vergonha de suas origens, e por isso a convivência com os guaranis foi uma redescoberta. “Tive uma identificação inexplicável com a cultura guarani e o modo de vida guarani. Me sentia parte dela”, diz Kaká. 
Ali ele conheceria Alcebíades Werá, um cacique independente, que pescava no rio e colhia da terra. Exatamente o contrário dos demais guaranis que moravam ali, dependentes de toda sorte de ajuda e assistencialismo. Órfão de pai e de mãe, Alcebíades adotou Kaká e lhe ensinou toda a filosofia da aldeia. Por aquelas paragens – onde viveria por 10 anos - começaria sua jornada de ativista indígena e ambiental.
Com a missão de contar à sociedade sobre os valores que ele aprendia e cultivava com os guaranis, ele passou a frequentar escolas e a repassar a sua experiência. Enquanto voltava para casa numa dessas atividades, foi atropelado por um ônibus. Nada grave, mas ficariam sequelas. Ao ser recebido na aldeia, Alcebíades fez mágica: preparou um ritual guarani que curou Kaká em dois dias. Grato, Kaká aceitou tornar-se discípulo de Alcebíades. Em 1986, aos 22 anos, Alcebíades o rebatizou Werá Jecupé, no lugar do nome de branco Carlos Alberto dos Santos, nascido em 1 de fevereiro de 1964. Seu aprendizado duraria três anos.
Depois, ele foi parar na secretaria de Cultura de São Paulo quando Luiza Erundina tornou-se prefeita da capital paulista, em 1989. Seus amigos que pertenciam a movimentos estudantis foram convidados a integrar grupos de gestão, e ele passou a desenvolver um projeto de valorização da cultura guarani por ali. O trabalho nas escolas passou a ser mais intenso, e os projetos no poder público prosperaram. Conseguiram tornar a Casa do Bandeirante, um patrimônio histórico, na Embaixada dos Povos da Floresta, dirigida por Ailton Krenak, um líder indígena e amigo de Kaká. Eles e outros indígenas também conseguiram, com apoio do então secretário de Educação Paulo Freire (morto em 1997) e da sua sucessora, Marilena Chauí, levar um centro de cultura para o meio da comunidade de Parelheiros, onde passaram a estudar também o currículo comum das escolas municipais da época.
Kaka ficou orgulhoso, pois ele nasceu antes um escritor e um amante da cultura que um político. Na escola, nenhuma criança implorava mais por futebol que ele por livros. A biblioteca era o lugar mais sagrado da escola, e Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Rubem Braga, Machado de Assis eram para ele como mentores. Único estudante indígena na escola, inspirou-se em suas origens para escrever Todas as Vezes que Dissemos Adeus, no início da década de 1990.
Ao receber as pilhas de livros publicados (3.000 exemplares amadores) por um instituto, que abarrotaram seu quarto e o obrigava a sair de livraria em livraria para divulgá-los, ele conheceu João Goldfarb, então dono da hoje extinta livraria Belas Artes, na Avenida Paulista. Ali, onde os chilenos lembravam de Salvador Allende, e a morte na ditadura de Augusto Pinochet, onde os brasileiros discutiam Chico Mendes, morto em 1988 depois de seu ativismo na Amazônia, onde José Dirceu e José Genoíno debatiam seus projetos políticos, hoje presos por causa do mensalão, Kaká divulgava seu trabalho.
A figura indígena chamou a atenção de Goldfarb. “Ele se dava super bem nas conversas com os rabinos que debatiam a cultura indígena, a cidade de São Paulo e o Brasil. Ele fazia uma ponte com o nosso mundo”, diz Goldfarb, depois 22 anos curador do prêmio Jabuti. De cara, a oralidade de seus livros encantou Goldfarb, que passou a indicá-lo à sua fiel e política clientela. Foi um sucesso. Enquanto nas demais livrarias da Avenida Paulista os livros deixados por Kaká vendiam duas ou três cópias por semana, na Belas Artes 15 exemplares eram vendidos no mesmo tempo. “Nos livros de Kaká há uma riqueza de fantasia, personagens, magia, algo que lembra muito As mil e uma noites”, diz Goldfarb.
O ex-livreiro ainda se lembra de como o discurso da proteção à terra, à valorização da cultura indígena e à proteção ambiental eram marca registrada daquela figura incomum em sua livraria. Por isso, Kaká foi convidado a dar uma palestra ali sobre como a sociedade estava acabando com os rios, matando-os de poluição e enterrando-os sob pontes e projetos arquitetônicos. “Foi um sucesso de público”, diz Goldfarb. “Foram umas quarenta pessoas, o público que cabia no mezanino.” Depois viriam mais cinco livros assinados por Kaká Werá. Alguns em versos, outros em prosa. Todos sobre fábulas e todos sobre índios. 
>> Leia a história pessoal de Kaká Werá na edição desta semana da revista ÉPOCA 
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Logo depois que publicou seu primeiro livro, Kaká pensou que seria ótimo ter uma editora indígena. Encucado com isso, ele não sabia na época, em 1993, que criava o embrião de seu instituto, o Arapoty, voltado para disseminar projetos culturais e de resgate às tradições indígenas no sul e no sudeste do Brasil. Quando contou aos amigos que criaria a editora Nova Tribo, todos acharam que ele enlouquecera. Afinal, de índio que escrevia ele só lembrava dele mesmo. A duras penas passaram-se dois anos, e finalmente saiu o primeiro livro, “Flecha Dourada”. Baseado numa pesquisa sobre os tupinambás, o livro é uma ficção escrita por Lauro Lima – um homem branco. Do projeto de editora o Arapoty nasceu em 1998.
Localizado em Itapeceria da Serra, seu instituto resume-se a três ocas, uma delas ao estilo guarani. É ali que ele reúne anualmente 2.000 jovens e professores, que escutam Kaká falar da importância da cultura indígena para a sociedade. Kaká também resgata o passado do Brasil do ponto de vista indígena. Fala do dia da independência do Brasil na Bahia, em 2 de julho, e o papel dos índios na luta, da Guerra do Paraguai, e como os índios receberam promessas de reconhecimento social caso fossem à guerra, e a presença tupi no português do Brasil. Tudo isso permeado de apresentações de dança, canto e pintura. Quando a noite avança, lá está ele na oca guarani, narrando histórias indígenas a um pequeno grupo de jovens sentados no barro ao redor do fogo.
São duas as maiores dificuldades entre os trabalhos do Arapoty. A parte mais dura é explicar  nas aldeias que eles precisam tirar de suas tradições a renda para viver, e não depender mais do assistencialismo. A outra barreira é financeira, e o dinheiro vem de parcerias e pela lei de incentivo à cultura. Da Funai não vem ajuda, ele diz. Mesmo assim, desde 1998, o instituto trabalhou a valorização da cultura com 10 mil índios, por 17 povos espalhados pelo sul e pelo sudeste do país. “Com seu trabalho, ele criou um diálogo com a sociedade”, diz Fábio Feldmann, deputado federal de 1986 a 2003, que conheceu Kaká na época que se debatia a questão indígena na Constituinte, hoje empresário. “Ele insere a cultura indígena num contexto urbano, por meio da cultura, sem aquela imagem de selvagem.”
Seu ativismo gerou uma dezena de convites pelo Brasil e pelo mundo: para falar das águas, da cultura de paz, da terra, do ambiente, ou para divulgar projetos feitos pelos próprios índios. Um desses casos foi em Nova Iorque, para discursar ao lado de brasilianistas, estudiosos do país no exterior. Ou para estudar de que forma as tribos poderiam contribuir para amealhar dinheiro para as aldeias, para ele, e para empresas, como no caso de uma consultoria que ele fez para a Natura quando ela criou uma linha de produtos com ingredientes brasileiros. “Ele não é um cara de convencer, é perseverante e ajudou nos projetos de muitas empresas. Ele é bom nisso”, diz Mário Mantovani.

Kaká Werá posa ao lado de brasilianistas na Universidade de Nova Iorque, em 1998. Seu ativismo lhe rendeu palestras sobre índios e o ambiente em diversos países. 'Nem sei direito como recebo esses convites', ele diz (Foto: Arquivo pessoal)
Em 2002, ele seria procurado pela organização mundial Ashoka, que financia projetos como o de Kaká. Durante três anos, ele foi financiado por eles para desenvolver seu trabalho, e em 2008 foi premiado pela Ashoka como um empreendedor social. “O Kaká é um construtor de pontes”, diz Anamaria Shindler, diretora da Ashoka para a América Latina.

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Kaká ganharia a função de “ponte” que todo amigo seu destaca em 1995. Numa das andanças pelo país, Kaká foi parar no meio dos índios craôs, que vivem em Palmas, no Tocantins. O cacique de lá, Akotok, notara o espírito aventureiro de Kaká quando o conheceu anos antes na aldeia guarani de Parelheiros, e o requisitou em Tocantins. Os craôs precisavam de ajuda, porque o gado que crescia ali devastava sua comida, seus hábitos e suas terras. “O capim ali vale ouro. É um tipo especial que faz o gado crescer mais”, ele diz. A missão de Kaká era divulgar um documentário feito pelos próprios índios à sociedade.
Durante um mês, Kaká conviveu com os craôs, por eles foi batizado num ritual que consistiu em ficar “empenado” como um gavião sobre uma rede, durante três dias, e deles recebeu a alcunha de "parri": a ponte entre índios e brancos. Kaká aceitou o desafio, e lembrou-se dessa cena quando aceitou ser pré-candidato ao Senado.
A função de parri se dá sobretudo por palestras a que é convidado no país e no mundo. Em 1999, foi à França e ali conheceu e tornou-se amigo de Danielle Mitterrand (primeira-dama francesa de 1981 a 1995). A organizadora do evento, Françoise Laforgue, era nora de Danielle. A primeira coisa que fizeram foram notar, um no outro, os anéis de coquinhos que usavam. Sorrindo, tocaram-se os dedos. “Como na cena do filme ET”, ele diz.

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Os índios Airton Krenak e Kaká Werá fazem um ritual sagrado em Danielle Mitterrand, ex-primeira-dama francesa e morta em 2011 (Foto: Arquivo pessoal)
Vidrada na importância das águas, que ela defendia por meio da sua instituição Frances Libertés, Danielle mostrou-lhe um cartaz da Embaixada dos Povos da Floresta. Ali, estavam estampadas fotos de líderes indígenas como Ailton Krenak, Marcos Terena e Chico Mendes. “Este eu não verei mais”, disse Danielle Mitterrand, ao mostrar Chico Mendes no cartaz. Kaká ficou emocionado. Depois de três dias, ambos se davam adeus. Mas voltariam a se ver muitas vezes, até a morte de Danielle, em 2011.
Com a ajuda de Danielle, Kaká, líderes indígenas e pesquisadores conseguiram tornar em reserva da biosfera (ambientalmente sustentável) uma área de 3 milhões de hectares, que abrange 53 municípios em Minas Gerais, em 2005. Sabendo que a UNESCO não respondia a esses pedidos que os pesquisadores vinham fazendo, Kaká ligou para Danielle pedindo ajuda. Ela orientou-o a fazer um evento liderado por índios. Eles saíram atrás de vários índios para fazer um evento chamativo. Deu certo. “Quando souberam que Danielle viria, deputados, prefeitos, a própria UNESCO, todo mundo baixou em Conceição do Mato Dentro em helicópteros”, diz Kaká. Danielle mal subiu no palanque e questionou o porquê da área ainda não ter se tornado uma reserva da biosfera. Meia dúzia de falas depois, uma assinatura aqui outra acolá, em 2005 mesmo, o local tornava-se a reserva da biosfera da Serra do Espinhaço.
Danielle também serviu de ponte entre Kaká e Dalai-Lama, em 2003. Os três dividiram a mesa numa palestra sobre a cultura de paz, na França. “Fiquei fascinado com sua serenidade”, Kaká diz. “Ele é minha inspiração de vida.” É com a serenidade de Dalai-Lama que Kaká rebate críticas sobre seu estilo calmo, calmo demais.
Marcos Terena, por exemplo, o líder indígena que conhece Kaká desde 1992, diz que ele deveria ser mais incisivo na defesa das terras indígenas.  “Ele escolheu o caminho da performance, dos cantos, algo que lembra o indígena, mas não é identitária”, diz Terena. “Acho difícil dizer que ele seja um líder indígena porque ora usa cocar, ora não. Ele não assume uma identidade étnica, ele faz algo genérico, ecológico, dizer que ele luta por uma determinada causa indígena é difícil.” Enquanto saboreia uma água numa das padarias mais tradicionais de São Paulo, Kaká não muda um átimo sua serenidade a despeito das críticas. Reflete, e diz que prefere o diálogo: “Toda vez que nós fomos para o pau nós perdemos. Desde o ano 1.500”, diz Kaká sobre os índios. “Sou fã dessa filosofia guarani de manter o foco no diálogo.”
É na paz imperturbável que ele pretende defender as causas indígenas, ambientais e da educação na futura campanha. Quer discutir o uso do solo, da poluição das águas e do uso sustentável das terras, e de conservar florestas em pé. São causas que ele defende há 30 anos. Ele preocupa-se agora somente em descobrir como virá a ajuda do partido. Sem dinheiro, confessa que está na expectativa de receber uma equipe do PV para guiá-lo, e tem dúvidas sobre se o partido irá investir na sua futura campanha.
“O recurso do partido é pequeno. Vamos animar os nossos quadros para aumentar o voto de opinião, por meio de organizações internas e pelos sites na internet”, diz Penna, presidente do PV nacional, sobre o potencial de investimentos.
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Apesar de requisitar ajuda para sua futura campanha, Kaká Werá desgosta de favores e perde toda a serenidade se passar por uma saia justa. Depois de um voo cansativo, ele e mais duas pessoas almoçavam num dos restaurantes mais sofisticados do Aeroporto de Congonhas, São Paulo. Ali, ele falaria muito e comeria pouco (um bife com arroz e feijão) e na hora de pagar a conta tentou quatro vezes debitar no cartão a sua parte, R$ 137. Sem sucesso em nenhuma. Foi o único momento que a paz de Kaká fugiu, o sorriso apagou e seu rosto murchou. Ao deixar o restaurante tropicou com força na porta de vidro. Pediu licença e sumiu pelo elevador rumo a um banco. Voltou ainda um pouco perturbado. “Um era erro de senha mesmo, o outro acho que era o limite do crédito, que acabou”. Logo na sequência, passou discretamente R$ 137 para o seu interlocutor, com o dinheiro que pegara no banco: “Aceita, aceita, aceita. Porque se não vou ficar muito triste”. Parecia triste e sincero. Três horas depois, ele recorreria a cânticos guaranis em Itapecerica da Serra, a fim de manter a cabeça erguida e caminhar sempre em frente.

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