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Entrevista com Kaká Werá, candidato ao senado pelo Partido Verde

1.Desde jovem o Sr participa de lutas pelas causas indígenas quando na década de 80 os índios guarani passavam por um processo de luta por demarcação de terras e o sr deu início á busca por apoio e sensibilização da opinião pública para fortalecer a comunidade. Foi nesse momento que sentiu que poderia contribuir com seu povo, participando ativamente no meio político?

Sim. No início da década de oitenta conheci e fui acolhido pelos guaranis de São Paulo, na região de Parelheiros, no extremo sul da cidade, que naquela época era chamada de aldeia da Barragem e hoje leva o nome de Tenondé Porã. Naquele momento, um querido e sábio pajé, Alcebíades Werá e o cacique Guirá Pepó tinham o desejo de regularizar as terras em que habitavam e fiz parte de um grupo que apoiou este objetivo. Mas a idéia que me encantou foi a proposta de Karai Mirim, uma relevante liderança e professor de história, que sonhava em ver na comunidade uma escola que contemplasse o fortalecimento da cultura local e que propiciasse o ensino básico e fundamental que a sociedade não indígena exige. Dessa maneira, os guaranis ficariam mais preparados para lidar com uma dura realidade e desafio, manter a sua identidade cultural e ao mesmo tempo dominar os códigos de linguagem e saberes da sociedade como um todo. Em 1986, as terras guarani ao sul da grande São Paulo foram então reconhecidas, graças á diversos tipos de apoio: antropólogos, sociedade civil, organizações sociais. Foi então que percebi que a mobilização cidadã era uma política eficaz para as nossas lutas. O problema é que as coisas param justamente no governo federal, que retarda á décadas a homologação final.
Veja bem, se observarmos somente a partir da Constituinte de 1989, época em que se determinou um prazo de cinco anos para a homologação de todas as pendências em relação aos povos indígenas, principalmente nas regiões em que já existiam estudos avançados em relação á isso - e avançarmos para 2014 , mais de 25 anos depois – grande parte das terras tradicionais indígenas não foram homologadas; então fica claro que uma dos imperiosos desafios ainda é a questão da terra.  Mas, também existe o desafio de novos paradigmas em relação a esta causa. Por exemplo, ao mesmo tempo em que indigenistas descobrem povos sem o menor contato com a sociedade envolvente ainda hoje; também temos uma diversidade de índios urbanizados, habitando em grandes cidades, que sofrem discriminação, falta de oportunidade econômica e inclusão social, enfrentando o descaso de assistência na área da saúde e na educação. Além disso, existe um desafio que é crucial não somente para os povos indígenas, mas para todo o ser humano na face da terra; que é manter as florestas e a diversidade de ecossistemas em pé. Este não é somente é um desafio pertinente aos índios, mas é uma condição para haver futuras gerações no mundo.

2. Quais são os principais desafios das comunidades indígenas hoje no Brasil?

Desde a época das capitanias hereditárias que nenhum governo se interessa em alguma ação que dê liberdade, autonomia, reconhecimento, cidadania e dignidade ao índio. A história esta aí, infelizmente, para mostrar isso. Na colônia fomos caçados. No império José de Bonifácio nos classificou como bons “autômatos da civilização”. Na velha república fomos destituídos de valor social e cultural. No regime militar tentaram “integrar” nos desintegrando. Houve uma sensibilização maior nos governos Fernando Henrique e Lula, mas sem cumprimento de muitos acordos e propostas importantes estabelecidas pelos próprios governos, como a questão das homologações das terras por exemplo. E agora a relação retrocedeu de um modo incrível. O governo Dilma investe bilhões em subsídios para os latifundiários, que por sua vez, incomodados com os índios, querem impor ao governo o poder de decidir sobre destino e demarcação dos povos, que recebem somente promessas.

3.O que foi a União das Nações Indígenas? E o projeto Ambá Arandú?

O projeto da criação do centro de cultura Ambá Arandú, proposto na década de oitenta pelo professor Karai Mirim, reunia cultura, educação e agro-floresta. Naquela época nem se falava em sustentabilidade, mas já sabíamos que o caminho era esse. Tivemos ao mesmo tempo o privilégio de iniciar sua implementação pelo saudoso educador Paulo Freire, secretário de educação do município de São Paulo na época, sendo continuado depois por Mário Sérgio Cortella; como também tivemos a dor de vê-lo sendo desestruturado pelo governo Maluf. Foi por isso que fundei o Instituto Arapoty, que começou a atuar pelas beiradas, buscando apoio junto aos setores empresariais que atuam com foco em responsabilidade social e conseguimos realizar em algumas aldeias dos povos: guarani, krahô, pataxó, kariri; ao longo dos últimos 20 anos, pequenos projetos sustentáveis que tem dado suporte para criar autonomia econômica, social e cultural para as comunidades.


  1. Como analisa a ação dos governos brasileiros em relação aos indígenas?

Em 1987 algumas lideranças indígenas, como Álvaro Tukano, Marcos Terena e Ailton Krenak, revolucionaram a maneira de lidar com a politica e as relações entre índio e não índio. Através da união junto á lideranças ribeirinhas e caboclas, como Chico Mendes e outros, foi criado em São Paulo a EMBAIXADA DOS POVOS DA FLORESTA, e dai saiu a UNI (União das Nações Indígenas), o Comitê Intertribal, o Instituto Arapoty e outras dezenas de organizações verdadeiramente indígenas. Antes disso, havia sempre um tutor que falava pelos índios. Depois, com a influencia do tipo de ação que estes líderes propunham, nós passamos a interferir na sociedade com voz própria. Isto foi fundamental para conseguirmos o apoio da sociedade civil, ambientalistas, pesquisadores, etc., na questão da constituinte de 1988.  Lembro-me que os militares chegaram a interrogar algumas de nossas lideranças, achando que a UNI (União das Nações Indígenas) tinha como propósito separar o Brasil em diversos territórios indígenas. E o que queríamos na verdade era e é simplesmente o reconhecimento de nossas terras ancestrais, o direito de expressar nossos valores culturais, o direito de ampliar o nosso conhecimento com os saberes da sociedade sem que isso signifique desqualificar os nossos; e a dignidade de sermos tratados como cidadãos, e não como estrangeiros em nossas próprias terras.


  1. O SENHOR É O CANDIDATO DE SÃO PAULO AO SENADO FEDERAL PELO PARTIDO VERDE. COMO PLANEJA ATUAR PARA MELHORAR A SITUAÇÃO DAS COMUNIDADES INDÍGENAS? 
Em primeiro lugar, quero dizer que, do ponto de vista pessoal, jamais pensei que poderia ser sequer pré-candidato ao senado.  Mas ao mesmo tempo é uma honra e oportunidade que o partido confere não somente á mim, mas á causa indígena brasileira e á causa da diversidade. Representa uma manifestação nítida das bandeiras que o partido defende, pois onde tem cultura indígena tem a questão ambiental e a questão da qualidade do futuro que queremos. Além disso, líderes antigos mais velhos que eu, portanto mais sábios, como Marcos Terena e Álvaro Tukano, e tantos outros do Acre, do Nordeste e de São Paulo; tem demonstrado apoio e tem colocado que é muito importante ocupar este lugar neste momento. Na verdade, os velhos sábios índios não pensam somente em si. Pensam no Todo. Queremos utilizar esta candidatura para dar visibilidade á questões gravíssimas que prejudicam não somente ás etnias; queremos apontar, por exemplo: a maneira como se explora e se envenena o solo, a questão das águas e seu uso irracional para gerar energia, a questão das devastações dos ecossistemas, que afetam o clima, a economia, a saúde das pessoas.  É uma candidatura a serviço da Terra, com o propósito de cuidar da Terra. Cuidando dela, melhora a situação dos índios e de todos os filhos da Terra. A situação dos povos indígenas vai melhorar quando cuidarmos desse chão, quando respeitarmos a diversidade, quando oferecermos educação, saúde e oportunidades iguais para todos e todas. 

6. Quais serão suas bandeiras caso seja eleito?

As mesmas pelas quais atuo á 30 anos: não explorar o solo, as águas, a floresta de modo irracional e ganancioso. Pressionar para efetivar uma dívida histórica com os índios: que é dar terra e dignidade através da educação, da geração de renda e do respeito á diversidade. E haverá uma novidade, serei o senador acompanhado permanentemente por um conselho de líderes representantes de diversas etnias.  

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