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O PRIMEIRO ÍNDIO CANDIDATO AO SENADO FALA SOBRE SUA TRAJETÓRIA

ENTREVISTA PARA JULIA NAVARRO

 Por que entrou na política?
A princípio entrei na política partidária para defender  questões relacionadas ao manejo adequado dos chamados recursos naturais e á retomada da dignidade cultural e social dos povos indígenas e descendentes.
2) Quais os seus objetivos como representante político?
No âmbito legislativo, propor leis que favoreçam o reconhecimento e respeito aos povos originários, o direito ao seus territórios culturais; o manejo sustentável dos recursos naturais  e uma educação que favoreça verdadeiramente o aprendizado  e ascensão social dos pobres, negros e índios.
3) Poderia descrever qual foi a sua trajetória de vida até o pleito da candidatura? Quando começou seu envolvimento na política (indígena/branca)?
Minha biografia é extensa, são 28 anos dedicados á ações de fortalecimento cultural e geração de renda com equilíbrio ecológico á cerca de 20 comunidades indígenas do sudeste do Brasil. Sou reconhecido e premiado como empreendedor social por instituições internacionais. Sou também escritor, autor de cinco livros com enfoque na temática indígena. Fui o primeiro escritor indígena do Brasil e participei do fomento de outros autores indígenas, desde 1992. Hoje somos mais de 40 escritores e uma produção literária que passa dos 500 titulos e juntos mais de 1 milhão de exemplares. Sou professor  desde 1997 da Unipaz, uma instituição especializada em formação humanitária e holística.
Meu envolvimento na política teve duas fases extremamente distintas. A primeira foi no período de 1986 á 1992, quando era estudante de escola pública, onde participei de movimentos como a Embaixada dos Povos da Floresta em São Paulo e atuei na área da cultura no governo de Luiza Erundina. Depois me dediquei ao terceiro setor, buscando viabilizar projetos sociais. Retornei á política partidária em 2010, pelo Partido Verde.
4) Já ocupou algum cargo na política pública (legislativo/executivo)?
De 1989 á 1992 atuei na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo  com ações envolvendo a promoção da cultura guarani de São Paulo.
 5) Participou em movimentos sociais (e/ou) indígenas?
Sim, Desde a década de 80.
6) Qual era a sua ocupação no local de origem, tanto em relação ao trabalho como em relação a posição na aldeia (caso morasse/more em aldeia)?
Moro em Itapecerica da Serra e além de dar aulas e vivenciam específicas abordando a cultura indígena e a sensibilização para com a natureza; sou escritor. Não moro em uma aldeia tradicional, portanto não ocupo uma posição política comunitária.
7) Teve dificuldades de concorrer como candidato às eleições de 2014/ ou em eleições anteriores caso tenha pleiteado? Por quê?
 A concorrência para esta eleição partiu de um acordo ocorrido em Brasília em 2013 quando juntamente com cerca de 20 lideranças indígenas do Brasil, solicitamos ao Partido Verde que nos abrigasse na legenda para darmos visibilidade ás nossas preocupações. O Partido Verde aceitou e criou a cadeira de Assuntos Indígenas nas executivas estaduais e  passei a fazer parte deste círculo. Não tive dificuldade pois o PV  acolheu prontamente todas as candidaturas relacionadas ao seu partido. A princípio minha proposta foi de sair candidato á deputado federal, mas foi o Partido Verde que propôs a minha candidatura ao senado e eu acabei aceitando.
8) Especificamente sobre o modelo estrutural do regime democrático, qual a sua opinião acerca do funcionamento da política partidária representativa? Acha que representa de fato? Considera que existem problemas? Quais?
Estamos vivendo uma crise deste modelo,  ele foi distorcido pelas artimanhas de grupos que pensam somente em estar no poder pelo poder. Os problemas mais comuns  são, de um lado, a degeneração das ideologias, substituídas pelas estratégias de corrupção; e do outro lado os pequenos partidos que servem de balcão de negócios.
9) Caso tenha participado anteriormente/paralelamente de organizações indígenas (ou demais órgãos políticos da sociedade civil), considera que existem diferenças nos modelos de funcionamento da política? Quais?
No terceiro setor, onde atuo a mais de 20 anos, as organizações muitas vezes se apoiam. Nos partidos, mesmo em coligações há o acirramento pela disputa de espaços de poder. A disputa é uma constante, dentro e fora do partido.
10)  Qual a sua relação com o partido da chapa? Como foi a sua filiação? Já foi filiado a outro partido? 
 Me filiei no Partido Verde em 2010. Não me filiei antes á nenhum outro partido.
 11) O(a) senhor(a) se autodeclara indígena. Neste ponto, a identidade declarada tem peso na formulação de suas propostas políticas? Se sim, poderia descrever como se dá esta influência?
Sim. Nasci em São Paulo.  Fora do modo de vida de uma aldeia tradicional. Tive uma infância de periferia de São Paulo e estudei em escola pública. Meus pais são de origem tapuia, de Minas Gerais. Após o falecimento dos meus pais, tive a oportunidade de viver em uma aldeia guarani nos anos 80, em Parelheiros, e adquiri ali também uma conexão com minhas próprias raízes; fui adotado por esta cultura que busco honrar até hoje. Por isso, a formulação de minhas propostas políticas se embasam na minha vivência e aprendizado com esta cultura.
 12) Considera que sofreu/sofre algum tipo de preconceito pelo fato de ser indígena? Se sim, poderia relatar o(os) ocorrido(s)?
Desde menino, mesmo não habitando em uma aldeia, vivi experiências preconceituosas, tanto na escola quanto no cotidiano.  O principal é o rótulo de associação ao “atraso cultural.”
13) Como é a relação interna na política - com os aliados de campanha?
No meu partido, de muito respeito e propositiva.
14) Amigos, parentes, conhecidos do seu local de origem: o que pensam a respeito da sua decisão a candidatar-se? Que opinião  expressam sobre a política partidária brasileira?
Inicialmente de termor e preocupação, pelo fato de ser um espaço de muita jogatina e corrupção. Há um descrédito grande na política partidária.
 15) A sua candidatura trouxe repercussões para seus parentes? Impactou de alguma maneira o seu local de origem?
A minha candidatura foi articulada com os parentes, justamente com o objetivo de dar visibilidade para algumas questões aqui já mencionadas.  
 16) Com base em sua experiência pessoal na política, o(a) senhor(a) vê possibilidades reais de mudança da situação dos povos indígenas do país por meio desta forma específica de se fazer política? Por quê?


Neste pleito há 85 candidaturas indígenas; é a maior participação que o Brasil já teve até agora. Isto já foi uma vitória, pois os principais partidos tiveram que adequar aos seus programas de governos a pauta indígena; além do fato de que toda participação cidadã de algum modo repercute neste espaço; o que estamos tentando atingir é que esta repercussão seja mais aguda e traga rápidos e bons resultados que reflitam na justiça social para os povos e em modelos sustentáveis para os recursos naturais.
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