Trilhas do Ser: Passos iniciáticos


Tem-se dito que estamos em uma crise planetária gravíssima, de alto risco para a espécie humana. A desagregação dos ecossistemas, promovida pelas limitações da atual consciência humana, centrada na ganância, usurpação, exploração indiscriminada dos recursos, semi-escravização humana e outros fatos deploráveis - tem agravado situações sociais insustentáveis e gerado um sistema quase ininterrupto de pequenas e grandes crises.
No âmbito pessoal, estamos percebendo o agravamento também de diversos distúrbios: stress excessivo, depressões, cânceres, distorções no campo afetivo – individual e familiar -, surgimento de inúmeras “novas” doenças, etc. e fica a pergunta, onde é que vai dar isso? Para muitos, determinados tipos de crise levam á estafa, stress, doenças, depressões, traumas, e até á morte fí Tudo dependerá de modo como cada pessoa acolherá o fato ou situação em que ela se encontra.  Podemos de um modo geral, observar alguns tipos de crise mais comum que todos nós, seres humanos. invariavelmente passamos:
  • Financeira
  • Relações afetivas
  • Auto estima
  • Identidade
  • Depressão
  • Falta de perspectiva
  • Espiritual
No entanto, do ponto de vista consciencional, a crise é um modo de possibilitar a evolução/maturação da alma. É a oportunidade de dissolver males gerados por situações conflitantes. Por isso, nesse sentido, ela pode ser também reconhecida como uma iniciação espiritual. Neste caso:
  • O primeiro passo é mudar o paradigma de acolher uma determinada situação negativa em sua vida que surge como sofrimento e acolhê-lo como aprendizado.
  • O segundo passo é identificar a causa mais profunda que originou a situação. E a causa pode estar relacionada com uma crença ou um valor errôneo ou uma distorção diante de fatos e situações vividas.
  • O terceiro passo trata-se da erradicação da distorção de crenças e valores que nos mantêm paralisados em determinada crise.
O acolhimento de situações, coisas e fatos que ocorrem em nossas vidas como lição é um exercício prático de auto-conhecimento, difícil e poderoso. Permite identificar causas e permite corrigir distorções, e para isso podemos nos servir de perguntas chaves, para nós mesmos, diante de nosso enredo pessoal.
As perguntas que devemos fazer para entender a crise como benção e sair da trilha que nos dá o sentimento de estarmos perdidos e entrarmos em uma trilha que nos direciona á um caminho claro são:
  1. O que esta(s) situação (ões) está querendo dizer em relação á qualidades da minha personalidade que não estou reconhecendo?
  2. Esta (s) situações se repetem ciclicamente em minha vida?
  3. Conheço alguém que passou pelo mesmo tipo de situação? Como atravessou?
2) A ENCRUZILHADA
Toda encruzilhada é a intersecção de dois caminhos, desafiando o caminhante á tomada de decisão, á dúvidas, á Podendo levar á soluções ou ao fundo do poço. O caminho do medo que cruza com o caminho da clareza. E a dimensão da clareza requer ver a nós mesmos partir de um coração amoroso.
Quanto mais uma pessoa vive sem consciência de si mesma, mais ela poderá ficar entre as forças do subconsciente, que ancora tanto as memórias, crenças e valores traumáticos, que formam o corpo dos medos; como também crenças, valores e memórias benéficas formando o corpo dos afetos que a movem em direção ao Amor. Ou seja, o ser sem consciência de si vive oscilando, titubeando pela vida, entremeando-a de fragmentos ora de dor, ora de felicidade, ora com certa neutralidade; passeando entre os seus três aspectos:
  • AVÁ = SUPRACONSCIENTE
  • NHENG= CONSCIENTE
  • BÔ = SUBSCONCIENTE
Na sabedoria ancestral tupy, estes são os três aspectos que formam o ser, e a partir do desenvolvimento, centramento e alinhamento consciencional destes aspectos é que o ser, como um Todo, evolui.Muitas vezes na vida ficamos em uma encruzilhada, tendo que decidir, escolher, apontar caminhos; e cada uma dessas vezes é uma pequena ou grande prova para a maturação de nosso ser.
Na encruzilhada temos decisões á tomar, e em algumas situações ficamos na dependência de dois irmãos gêmeos que nos habitam: Nhanderykei (o irmão menor) e Nhanderuvuçú (o irmão maior). O menor tem a tendência de nos conduzir á paralisia, á rigidez excessiva e ao medo. O maior tem a tendência de nos conduzir á mudanças, ao novo rumo, á Qual caminho escolher?Há quatro atitudes básicas diante de uma encruzilhada:
  • Fé/Confiança na melhor escolha
  • Fuga
  • Paralisia
  • Tomada de consciência e dissolução
A fé e a tomada de consciência são atitudes do "irmão mais velho que habita em nosso interior" que a sabedoria ancestral tupy nomeia de Nhanderuvuçu, que significa o "Eu Maior". A fuga e a paralisia são atitudes do "irmão mais novo", ou o ego, chamado em tupy de Nhanderykei.  Para que cada vez mais nossas decisões sejam tomadas pelo "Maior"em nós há que se cultivá-lo. E isto exige o silêncio e a contemplação como método.
3) O SACRIFICIO
Todas as culturas do mundo desde tempos remotos experienciaram/experienciam a prática do sacrifío.  No entanto, o entendimento e o sentido deste ato têm passado por alterações e distorções ao longo da história da presença humana na Terra.
As culturas indígenas das Américas praticavam o sacrifício humano, como oferenda aos deuses para obter algo em troca. Assim também como outras culturas. Existe ainda hoje a prática do sacrifício animal, no sentido de oferecer suas vidas, ou energia vital, á supostas forças/entidades superiores. Desse modo, o velho modelo do sacrifício como normalmente se entende está relacionado á:
  • Oferenda (oferecer algo menos valioso por algo mais valioso)
  • Sofrimento
  • Compensação (corrigir um suposto erro, pagar um preço)
  • Libertação
Na língua hebraica, a palavra para sacrifício é korban, que tem o significado de “se aproximar de Deus”. Na língua tupi a palavra é kandire, que significa “desprendimento”, ou seja, se desprender/desapegar de algo, mas sem esperar por nada em troca. Na língua latina esta palavra é a união de sacro (sagrado) e ofício (trabalho), nos dizendo que é o sagrado trabalho necessário para a evolução do ser. Na verdade, o sacrifício é o sagrado trabalho para sair de uma paralisia, de uma encruzilhada, de uma zona de conforto, para uma oitava superior, uma verdadeira melhora de sua condição; e para tal situação ocorrer é necessário o desprendimento de algo. Este é o correto sacrifício.
A sabedoria ancestral fala de três tipos de corretos sacrifícios:
  • Sacrifício do corpo – por exemplo: o jejum
  • Sacrifício da mente – por exemplo: o desprendimento de uma crença distorcida de si
  • Sacrifício da alma – por exemplo: o abandono de uma crença negativa/limitante que paralisa o ser.
No modelo em seu sentido mais profundo de sacrifício, a relação de oferenda também é revalidada, redimensionando-a em três tipos:
  • Oferenda da gratidão
  • Oferenda do louvor
  • Oferenda da celebração
Nesse sentido, para aqueles que têm necessidade de materializar a oferenda, acabam substituindo a matança de animais por mandalas de flores, de frutos, perfumes, cristais e incensos.
4) A NOITE ESCURA DA ALMA
A noite escura da alma é o momento crucial da crise. Esse termo vem de São João da Cruz, um monge espanhol que passou por um episódio de tal forma transformador que ele traduziu por este nome, que com o passar do tempo acabou sendo utilizado pela psicologia para explicar esse momento aos quais todos nós passamos em épocas e etapas muito singulares em nossas vidas.
É o momento em que questionamos todos os sucessos e nos confrontamos com todos os fracassos de nossas vidas. E reações profundas ocorrem. Algumas terrí Somos lançados á espaços interiores onde literalmente ficamos “sem chão” e com a sensação de estar “sem luz”.Nesse período alguns comportamentos desestruturantes da personalidade podem se manifestar, como:
  • Depressão profunda
  • Idéias de auto-aniquilamento
  • Fuga constante da realidade
  • Isolamento doentio
Porque isso ocorre? Devido á uma distorção que nos habita desde que nascemos, passamos a crer que somos matéria. Nesta perspectiva criamos um jogo com diversos enredos e tramas. Quando perdemos, nos angustiamos. Quando ganhamos, nos exaltamos. Até que um dia este jogo de opostos deixa de fazer sentido. É quando a noite mais profunda vem. Não existe uma única noite escura da alma, existem diversas, de intensidades também diversas. E cada qual nos dá uma lição, uma lapidação e um remodelamento de posições e atitudes, de valores e crenças.
5) A MORTE
O maior problema em relação á morte se deve ao fato de que nos negamos a conhecê-la. Vivemos como se ela não existisse e ao mesmo tempo morremos a cada dia. O povo Bororo tem a morte como sua principal companheira, senhora de um poderoso portal. O povo indígena do México tem a morte como uma santa, e ela é cultuada e celebrada.
OS CINCO ESTÁGIOS ESPIRITUAIS DA MORTE
“ Segundo o budismo, quais são então as nossas experiências nos derradeiros instantes da vida que agora vivemos? O Budismo explica que no momento da concepção a nossa consciência entra na matriz da mãe e toma como suporte a união das células masculina e feminina. Nos textos fala-se da essência branca do pai e da essência vermelha da mãe como os aspectos sutis dessas duas células que presidiram à nossa concepção e dizem que essas essências perduram durante toda a nossa vida. Por outro lado, tal como o mundo físico exterior, também o nosso corpo é formado pela interação dos cinco elementos ­– terra, água, fogo, ar e espaç No momento de morrer estes cinco elementos dissolvem-se uns nos outros e cada etapa desse processo é acompanhada por certas sensações particulares. Por último, a consciência dissolve-se na vacuidade e é aquilo que consideramos como sendo a morte, o momento em que o espírito e o corpo se separam. Nesse momento as essências branca e vermelha de que falamos dissolvem-se no coração. No final de todas as dissoluções o moribundo tem a experiência direta da luz clara, uma luminosidade que foi descrita como uma “aurora imaculada num céu de Outono perfeitamente limpo”. Essa é a consciência fundamental, a base de todos os outros níveis de consciência e a única que está sempre presente em todas as fases do contínuo da existência. “.Monja Tsering Paldron.
Na tradição indígena temos o kuarup, que é um dos rito de morte e transcendência mais conhecidos do Brasil. No entanto é pouco compreendido. Basicamente ele propõe a reverência e celebração por cada portal/elemento que integra o corpo físico que com a passagem do tempo o desintegra. E ele reconhece a imperfeição que é o ser humano dentro do seu ciclo de tempo/espaç Ele reconhece o principio da “impermanência” presente na natureza e o celebra, trazendo o viver para um grande “agora” fazendo do momento de origem e do momento de final um portal de transição.
Temos muita dificuldade de aceitar todos os tipos de mortes: de crenças, de hábitos, de comportamentos, de distorções sobre nós mesmos e sobre os outros. Temos a tendência de querer um mundo estático, como se o tempo e as transformações não fossem naturais, integrantes do processo evolutivo.
6) A PURIFICAÇÃO
A purificação é o resultado dos embates entre o irmão mais novo e o irmão mais velho que habita em nós, quando desse embate cristaliza-se uma límpida essência que jamais evaporará. Trata-se da sabedoria. A cada superação de cada etapa diante de circunstâncias e fatos que nos ocorrem nos tornamos mais conscientes de nós mesmos e de nossas potencialidades e possibilidades. Isto é o propósito da purificação.
Ancestralmente há três tipos de purificação:
  • A purificação do corpo – que apoia na eliminação de maus hábitos alimentares, comportamentos arraigados de determinados vícios e desagregação de padrões negativos automatizados.
  • A purificação da mente: que apoia na eliminação de padrões de crenças e valores limitantes.
  • A purificação do espírito: que elimina os diversos “eus” psicológicos gradativamente, conforme vamos galgando cada etapa evolutiva.
7) O RENASCIMENTO
Não nascemos novamente somente á cada encarnação. Podemos nascer de novo a cada dia de nossas vidas, porque é isso que ocorre corporalmente, a cada uma de nossas células. Entre a rigidez e a flexibilidade. Entre o passado e o futuro. São poucas as vezes em que escolhemos o presente. Nascer de novo é um treinamento para estarmos vívidos, presentes. Lúcidos no aqui/agora da existência. O irmão mais novo que habita em nós normalmente quer manter-se inalterado, o que gera rigidez, limitação e estagnação. O irmão mais velho que habita em nós normalmente busca novos caminhos, novas possibilidades, com o claro reconhecimento de que o viver nos proporciona um aprendizado permanente, e para isso se abre á mudanças quando percebe que já cumpriu um determinado ciclo em qualquer situação ou fato de sua vida. Está pronto á nascer de novo quando for necessário.
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