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A TRAJETÓRIA DE KAKÁ WERÁ

Kaká nasceu na cidade de São Paulo. Seus pais pertenciam aos povos Kaitité (pai) e Kaxixó (mãe), já desaldeados, trabalhadores rurais, ou caipiras da roça. Migraram de Minas Gerais, onde viviam, de uma região  na cidade de Montes Claros e foram morar em São Paulo, na zona sul da metrópole próximo a uma aldeia guarani nos anos sessenta.Alguns antropólogos afirmam que sua origem é kaiapó,pois observaram que determinados subgrupos fazem parte deste tronco linguístico; no entanto os povos que habitavam a região de origem de seus pais eram chamados genericamente de tapuias, um termo que abrange inúmeras etnias. 
No início da década de 80, a terra dos guarani, vizinhos da família de Kaká, passava por um processo de luta por demarcação, foi quando ele voluntariamente passou a participar da realidade da comunidade guarani, buscando apoios para seus propósitos, através da sensibilização da opinião pública e tecendo relações importantes com objetivo de fortalecer a comunidade, pois pelo fato de viver e estudar na periferia de São Paulo, conhecia a maneira de se comunicar bem com a sociedade não-indígena.
Acompanhou e participou do processo de reconhecimento da demarcação territorial dos guarani de Parelheiros e o movimento de empoderamento da comunidade local, desta convivência foi acolhido pelo pajé Alcebíades Werá, sábio ancião guarani. Verificando que os jovens guarani não se interessavam mais pelo aprendizado da cultura, Alcebíades Werá ensinou á Kaká o "Ayvu Rapytá", os fundamentos da tradição, e em 1986, foi batizado no Nimónkaraí, uma cerimônia sagrada, e recebeu o nome guarani de Werá Jecupé.  Este momento marcou também um compromisso de Kaká Werá para continuar apoiando-os, principalmente nos aspectos de fortalecimento da cultura e retomada de valores milenares e sagrados.  
Ali fora o embrião da relação e do trabalho de consciência cultural e resgate de valores que Kaká Werá passou a desempenhar desde então.Por esta época conheceu Ailton Krenak, ativista e líder da causa indígena, e Daniel Munduruku,que visitavam regularmente sua comunidade. 
Na época da escola secundária, Kaká tinha forte envolvimento com o movimento estudantil e questões ecológicas. Ele era o único remanescente de origem indígena que estudava na escola pública e fazia a ponte entre o movimento estudantil e as questões ambientais de sua região.  
Criou um grupo ligado à causa indígena e, junto com outros índios, desenvolveu o projeto Ambarandu – que significa "templo do saber" – no qual propunham a criação de uma escola dentro da aldeia indígena que contemplasse a união de disciplinas da cultura indígena, não-indígena e agricultura. Foi uma idéia coletiva, que se opunha, já naquela época, ao sistema de dependência política e social da Funai, que não se interessou em apoiar uma proposta diferenciada.
Entre 1987 e 1988, nasce a UNI (União das Nações Indígenas) com o propósito de unir diversas lideranças de etnias diferentes e ter representatividade na Assembléia Constituinte. Da qual fez parte Ailton Krenak, Daniel Munduruku, David Yanomami, Marcos Terena, Chico Mendes e outros. Foi nesse momento que Kaká tornou-se aprendiz destes líderes que passaram a fazer parte de sua vida.
De 1988 a 1989, o grupo envolve-se novamente num debate para ter representatividade na Constituinte. Em 1988, Kaká recebe um convite para trabalhar na Secretaria de Cultura de São Paulo, dirigida naquele momento pela filósofa Marilena Chauí. Neste período colaborou para articular junto ao  secretário da Educação Paulo Freire em uma série de projetos especiais para cultura indígena do município de são Paulo. Dois centros foram construídos com apoio público e de universidades: o Centro de Cultura e o Centro de Agricultura. Projetos coordenados sob a responsabilidade do líder guarani Karaí Mirim.
Graças á sensibilidade e visão de Marilena Chauí, o patrimônio histórico da cidade "Casa do Bandeirante", se transforma naquele tempo na Embaixada dos Povos da Floresta, dirigida por Ailton Krenak, que se torna um núcleo de debates, difusão e articulação de ações ás quais Kaká Werá se envolveu.
Em 1992, ficam prontos os prédios e começa-se a pensar na formação dos professores, que seriam indígenas e não-indígenas. Porém, este trabalho não aconteceu porque, em 1992 muda o governo da cidade e o novo prefeito, Paulo Maluf, não aceita uma proposta diferenciada, deixando os guarani ao descaso e invisibilidade social.
Em 1994, Kaká cria o embrião do Instituto Arapoty, uma organização, que tem como missão difundir o saber ancestral das culturas indígenas e promover apoios para as comunidades indígenas no combate ao assistencialismo, fortalecendo os valores de cada cultura e criando a pontes para a sustentabilidade. Nesta época nem se falava em desenvolvimento sustentável, mas era isso que propunha.
Além destas questões sociais, Kaká dedica-se ao estudo da fitoterapia (todas as terapias naturais), buscando integrá-la ao seu conhecimento indígena. Com o tempo, Kaká percebe que a história indígena sempre foi mal contada nas escolas. Assim, faz um aprofundamento sobre quais foram todos os processos históricos pelos quais os povos indígenas passaram, criando conteúdo para desenvolver um trabalho de "descatequização" (desmistificação) da cultura indígena. Publica cinco livros, sendo dois deles adotado pelo Ministério da Educação para ser utilizado dentro das escolas e também passa a dar diversas palestras sobre o tema da cultura indígena.
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