Pular para o conteúdo principal

Kaká Werá fala para a Rádio Yandê

O escritor, educador, ambientalista e fundador do Instituto Arapoty, Kaká Werá, de 51 anos, ficou conhecido por sua sensibilidade, livros e trabalhos sociais voltados para difundir o saber ancestral das culturas indígenas. Mas principalmente no combate ao assistencialismo e desmistificação da cultura.

Sua família de origem indígena vivia em Minas gerais e migrou para cidade de São Paulo nos anos 60. Na década de 80 em São Paulo ele iniciou um trabalho de apoio a Comunidade Guarani, criou laços de amizade profundos com o pajé Alcebíades Werá, um sábio ancião do Povo Guarani que compartilhou com Kaká seus saberes. Em 1986 Carlos Alberto dos Santos foi batizado e recebeu o nome guarani de "Werá Jecupé", hoje conhecido como Kaká Werá.

Em entrevista para Rádio Yandê ele falou sobre a importância de conscientizar a sociedade para as questões indígenas e a força da cultura indígena no combate aos males e desafios enfrentados pelos Povos Indígenas nos dias atuais.

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá - Os Povos indígenas possuem saberes tradicionais que são de fundamental importância para preservação da biodiversidade. De que forma esses saberes podem auxiliar comunidades, instituições, empresas e toda sociedade ? 

Kaká Werá: Os povos indígenas possuem um princípio, de modo geral, que diz que a natureza é uma Entidade Viva, provedora de tudo que necessitamos e tudo que precisamos fazer é manejá-la com cuidado, gratidão e respeito. A partir deste valores, alguns povos desenvolveram sistemas de cultivo, caça, pesca; por exemplo, interagindo de um modo tão harmônico com os ciclos, a sazonalidade, respeitando os limites da cada lugar, que praticamente não provocam desequilíbrio ecológico. Creio que uma das maiores contribuições das culturas ancestrais é justamente neste aspecto de valores e princípios sustentáveis. 

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá - A PEC 215 e outras ações da bancada ruralista são uma verdadeira ameaça a demarcação de terras indígenas. Em todo o país muitas áreas indígenas estão sofrendo com reintegração de posse, invasão, perda de portarias declaratórias, vários conflitos. Em São Paulo os Guarani Mbyá no Jaraguá estão correndo risco de ser despejados. O que gera situações como essas e o que pode ser feito para impedir ?

Kaká Werá: A idéia da PEC 215 é um regresso á época mais estúpida da colonização, pois tira a decisão de demarcação de terras do Poder Executivo que o faz após longos estudos antropológicos e jurídicos e  deixa a responsabilidade para os ruralistas, que são os invasores e os causadores de conflitos sociais e ecológicos em diversas regiões do país.  Em São Paulo, neste momento, os guaranis correm o risco de perder uma área mais do que legítima deles. Por omissão do Estado em assinar um projeto que demonstra com todos os estudos e reconhecimentos possíveis, que aquela área é deles. 

O que podemos fazer para impedir é sensibilizar a sociedade como um todo para que ela perceba o quanto estamos no meio de um jogo de interesses escusos e pedir o apoio da própria sociedade, através de seus especialistas nas áreas e temas que estão em conflito. Outra coisa é fazer com que a sociedade reconheça que o que acontece de ruim para as comunidades indígenas, repercute negativamente para todos nós. Índios ou não, pois desestrutura não somente culturas, mas também o clima e o meio ambiente. 

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá -  O tráfico de influências age no poder legislativo, executivo e judiciário, a corrupção e falta de ética tornam as pessoas descreditadas da justiça. Órgãos que deveriam ajudar com funcionários agindo de forma irregular. Nesse momento muitos perdem a esperança em um futuro melhor. Os mais velhos ensinam que é preciso pensar nas futuras gerações. Como podemos combater os males que assolam não apenas o corpo mas o espirito das sociedades e cotidiano para fazer um amanhã melhor ?

Kaká Werá: Pois é. A grande crise da sociedade é que aqueles que ocupam postos de poder e decisão política, em sua maioria, não possuem verdadeiramente compromisso social. Além disso, uma boa parcela não tem caráter. O poder político passa por uma longa crise de valores. Que são virtudes que vem da alma, da essência do ser humano. Por isso, uma maneira de contrapor esse estado de coisas é oferecer princípios baseados em valores, ética profunda e mostrar que é possível viver e ser próspero sendo honesto. Mesmo que isso pareça algo reservado á poucos, na verdade não é. A maioria da população brasileira é séria, responsável e se preocupa com suas raízes e seus frutos, que são as gerações futuras, mas elas precisam de modelos atuantes para se fortalecerem e perceberem que ainda é possível um mundo melhor.

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá -  Em seu livro “A Terra dos Mil Povos”(Ed. Peirópolis, 1998), você fala sobre o caminho do guerreiro, a necessidade de aprender a discernir, e que quando se deixa de criar o inimigo, extingue-se a necessidade das armas. Você acredita que os conflitos gerados pela falta de conhecimento sobre a realidade indígena e preconceito podem ser combatidos com difusão das culturas indígenas ? Essa sabedoria milenar de respeito a todos os seres e principalmente do poder da palavra para os povos indígenas pode ser considerado um antidoto para o veneno da intolerância ?

Kaká Werá: Eu acredito que podemos combater com arte, literatura, ombridade, sabedoria, ética e valores. Pois assim estamos combatendo com a força da alma. Aquilo que não tem alma se auto-destrói. Aprendi com os guaranis que a palavra é o corpo da alma. Quando uma palavra vem com verdade, ela vem com a força do espírito. E isso contagia. Se a gente combater  intolerância com intolerância estaremos somente alimentando mais ainda essa coisa terrível. E aquilo que alimentamos, vive. Assim como aquilo que não alimentamos, morre. 

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá -  A degradação ambiental deve ser combatida de que forma ?

Kaká Werá: A degradação ambiental deve ser combatida com campanhas de comunicação, com cooperação entre pesquisadores, cientistas, especialistas, sabedorias ancestrais e tudo o que tiver ao nosso alcance para mudar toda uma mentalidade que degrada.

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá - Como a dependência e o assistencialismo ao longo dos séculos prejudica o etnodesenvolvimento indígena ?

Kaká Werá : Este é o maior veneno que o nosso povo ainda bebe. Após séculos de extermínios de nossos antepassados e de seus saberes, estamos há décadas em um sistema de relação com os poderes públicos praticamente na base do estímulo à dependência social seguida muitas vezes de adaptação à regras totalmente contrárias ao modo de ser de várias culturas. Nós temos gerações inteiras que já nasceram com uma mentalidade de dependência social. Todas as culturas indígenas do passado eram sustentáveis. Nenhuma cultura indígena havia criado por exemplo o trabalho escravo, até o surgimento de João Ramalho, no século XVI, que persuadiu algumas etnias a escravizarem outras. O nosso maior desafio é curar esse veneno.  

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá - O que faz parte da politica indígena que é diferente na politica indigenista ?

Kaká Werá: Existem políticas feitas pelos próprios índios que levam em direção a recuperação da dignidade cultural, enquanto que a política indigenista muitas vezes insiste em manter uma relação de dependência e sobreposição de sua suposta ciência sobre a ciência dos povos da floresta. 

(Rádio Yandê) Renata Tupinambá - Uma árvore não sobrevive sem raízes. Os saberes ancestrais devem ser a base de nossos caminhos ?

Kaká Werá: Sim. Nossas raízes são sustentáveis. Quando conectamos com elas através de seus princípios e valores, geramos bons frutos.


Redação Yandê
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A espiritualidade da natureza

A espiritualidade não é um movimento e nem uma ideologia. Não é uma teoria criada por alguém. Também não é privilégio de alguns. Embora não seja reconhecida por inúmeras pessoas.  A espiritualidade é um princípio universal que está na base da sabedoria humana. Ao longo da presença de diversas culturas pelo mundo desde épocas imemoriais ela tem estado presente em sistemas de conhecimento, filosofias, cosmovisões, memórias, etc. A mais antiga noção de espírito e de espiritualidade vem da natureza. Ela foi e é a inspiradora do reconhecimento e do desvendamento do mistério que somos. Nesse sentido as culturas que se formaram com laços fortemente traçados com a natureza desenvolveram uma espiritualidade e uma visão de espirito de extrema poesia e integração. Uma das culturas que se expressou de um modo agudo e profundo essa relação do espírito com a natureza foi a tradição tupi. Umas das mais antigas raízes culturais do Brasil.  A tradição tupi tem mais de 12.000 anos de presença na face …

NOSSAS RAÍZES PRECISAM SER RESPEITADAS

Kaká Werá fala sobre a questão indígena