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Viver com que propósito?

Quando conheci o cacique Davi Yanomami no fim dos anos 1980, em São Paulo, na Embaixada dos Povos da Floresta; foi para refletir e buscar soluções para uma série de problemas: ele revelou que pessoas invadiam a Amazônia em busca de ouro, outras pirateavam o patrimônio genético em nome da ciência e outros ainda invadiam territórios de povos milenares da região, como foi o caso dos próprios Yanomami. 
Ele dizia que não entendia muito bem qual o sentido que o estrangeiro dava á vida, uma vez que não respeitava nem a do seu semelhante que expressa uma cultura diferente e nem a dos reinos da floresta, pois extraiam vegetação, minerais e mudavam cursos de rios de uma forma gananciosa e perigosa para a floresta e para a comunidade humana. 
Para o povo yanomami, o propósito de vida  é manter o céu em cima e a terra embaixo, deixando um espaço entre o céu e a terra, onde os seres livres mas com espírito de celebração, pudessem expressar contentamento e gratidão pela vida que constrói uma coluna de equilibrio entre o alto e o baixo.  
Nos estudos e pesquisas da ciência do mundo dito civilizado se diz que no cérebro humano existe uma espécie de sistema de recompensa formado por determinados tipos de neurônios. Estes estão localizados na parte central da cabeça; e o mais interessante é que quando se faz algo agradável física ou mentalmente, tais neurônios liberam uma substancia chamada dopamina, que causa a sensação de prazer.   
Diz-se que esse sistema tem uma grande influencia sobre nossas decisões e ações. Quando nos sentimos bem ou mal, é este sistema que nos dá esta sensação. Ele foi descoberto nos anos 50 pelos psicólogos James Olds e Peter Miller, da Universidade McGrill, do Canadá, fazendo a seguinte experiencia com ratos: sempre que o bichinho ia a um ponto da gaiola para receber um pequeno choque (prazeroso) no septo, um ponto no cérebro, ele voltava para receber mais.  Era tão bom que o bichinho chegou a passar 7 mil vezes por hora, e não ligava para mais nada. 
Não queria outra coisa senão buscar satisfação. Atualmente a ciência sabe que outros atrativos (drogas, açúcar, gordura, sexo) também têm o poder de atuar nas áreas deste sistema. 
É como se o cérebro fosse feito para o prazer e a felicidade. Desde informações vindas através do sabor, passando pelas sensações auditivas e visuais, pelo tato e aroma; até percepções vindas de regiões além dos sentidos.  De certa forma os Yanomami já sabiam disso e fazem da celebração e o equilíbrio entre o céu e a terra a razão de seu viver. 
Biologicamente somos preparados para o prazer, no entanto geramos dor. Mas porquê? Qual a causa? De um lado temos o desafio de lidar com a deformação do prazer; por exemplo, quando invade-se um território e afronta-se uma cultura, deve haver algum tipo de "recompensa" sensorial perversa para isso. Deve haver algum tipo de deformação. Do outro lado o também ás vezes agimos como o ratinho que faz o exagero de ficar sete mil vezes somente no prazer despropositado que leva ao vício e consequentemente ao desequilíbrio a partir deste sistema de recompensa.  Ou seja, temos um cérebro preparado para a felicidade mas não sabemos muitas vezes lidar com ele.  



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