AMPLIANDO HORIZONTES: DE PIRATININGA Á SABARABUÇÚ

Essa história começa em Piratininga, um planalto muito distante, no tempo e no espaço. Lá moravam os Guaianás, os Guaranis, os Tupinikim logo abaixo no litoral, os Carijós e Puris mais ao longe. Circulavam pelas líquidas vias dos rios e pelas trilhas que formavam redes de conexão entre as mais diversas culturas daquela época.  Mas lá passaram a morar também jesuítas e chefes de bandeiras, uns interessados em evangelizar culturas milenares e outros querendo explorar e adquirir ouro á qualquer custo.
Os chefes de bandeiras eram portugueses de mentalidade aventureira e obcecados por ouro. Mas também entre eles muitos mestiços, orientados para a mesma ideia de aventura e riqueza. O grupo que eles lideravam eram todos índios, de diversas culturas, apresadps pelo medo do “pau de trovão” que fazia inúmeras vítimas para conquistar a servidão e a obediência. Cada bandeira tinha entre dois mil á três mil índios, que rompiam trilhas e vias pluviais milenares dias e noites em busca das preciosas pedras.
Um dia ouviu-se a história de Itaberabuçú, que virou Sabarabuçú: a serra resplandecente, um lugar onde as montanhas brilhavam como ouro. Então se aventuraram; cerca de cinco á oito mil pessoas: divididos entre três ou quatro bandeiras, caminhando milhares de quilômetros me direção ao que imaginaram ser uma espécie de Eldorado. Estava iniciada a marcha para o Norte, pelo caminho dos Cataguás, passando por Taubaté, passando o Paraíba e as gargantas da Mantiqueira, rumo á montanha dourada.
Foi assim, atacando aldeias, matando famílias, apresando homens, impondo ritmos duros de trabalho, adoecendo pessoas; que se fez a cidade de Sabará, depois Ouro Preto, depois Mariana, e muitas outras aqui e acolá. Ás custas da escravização de Caetés, Puris, Krenak, Maxakalis, Xacriabás, Caxixós, Caitités, é que se ergueram vilas e vilarejos e devastou-se montanhas.
Foi assim que se concebeu o estado que leva o nome de Minas Gerais.  Vilas de povos semeados da ganancia pelas pedras brilhantes. Primeiro as raízes locais, depois os que vieram da África.  Uma diversidade de etnias foram extintas, outras por séculos escravizadas, e outras se misturaram para a geração de uma nação plural, chamada Brasil.
De lá para cá, a voracidade com que se come as montanhas só tem aumentado. Em uma época em que toda a Terra se encontra no seu ponto máximo de exaustão. Urge neste momento parar; olhar para trás, para o agora, e para qual horizonte queremos seguir direção.
Esse modelo de vida gerado no século XVI ás custas de suores e sangues, de extorsão de pessoas, de exploração á qualquer custo dos recursos que a Mãe Terra oferece generosamente; não tem futuro, não tem mais presente, não é mais possível.
Podemos refletir um pouco sobre qual o modelo de alguns povos ancestrais, para comparar e possivelmente ampliar nosso horizonte de percepção. Digo isso também porque precisamos ressignificar nossa relação com as raízes que fundam praticamente todos os estados do Brasil.
As chamadas etnias indígenas tinham outro tipo de relação com o ecossistema, com os recursos e frutos que dele provinham. Primeiramente consideram os ecossistemas entidades vivas, sábias, avós de culturas milenares e portanto dotadas de sabedoria inspiradora. Então aprenderam a ouvir os lugares. Não somente comtemplavam os lugares, mas também ouviam. Dialogavam nos sonhos com os lugares. Para saber como se relacionar com os lugares.
Talvez seja preciso contemplar novamente os espaços e territórios, ouví-los, sentir suas querências, seus dons, suas possibilidades. Manejá-los com cuidado, mas antes permitir-se ser manejados, sentidos, por eles.  Os antigos sábios das antigas culturas diziam que tudo tem um ponto exato de equilíbrio. Cada lugar, assim como cada pessoa, tem seu dom e seu limite. Será que essa característica dos antigos povos não poderia nos inspirar uma nova relação para o cultivo de novos horizontes?
Mas antes nos temos que pedir perdão á Mãe Terra. Exaurimos seus recursos de um modo violento e desumano. E isto está refletindo no clima, está refletindo no ritmo das estações, está refletindo na sociedade humana; como sofrimento, dor, miséria, violência, e outras angústias.  É necessário pedir perdão por que esse gesto significa que reconhecemos que o caminho não é pelo mesmo compasso e mentalidade dos aventureiros do século XVI. Para mudar de rota, temos que reconhecer que a atual não é mais possível.
E por fim temos que honrar a Mãe Terra, como um Krenak o faz.  A palavra Krenak, o povo que habita as proximidades do Rio Doce, significa: cabeça na Terra; que é o gesto de tocar a testa na Terra em reverencia á ela.  Temos que cantar em celebração á Terra como os Maxakali, temos que contemplar como os Tapuia, que assim faziam dos seus milenares abrigos nas grutas da Serra do Cipó até os Montes Claros de Varzelandia, onde habitaram meus antepassados.

Ouvir os ecossistemas, honrá-los, celebrar o reconhecimento de que eles são o berço e o fluxo da vida e da prosperidade que ela promove, poderá com certeza nos inspirar a criar outros modelos da arte de viver em comunidade. Porque toda sociedade é um sagrado tecido de uma diversidade de comunidades.

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