Demarcar os Territórios de nossa dignidade

Aqueles que me conhecem sabem que um dos meus principais trabalhos se relaciona diretamente com a natureza. A mais de duas décadas conduzo grupos de pessoas para as matas, através de trilhas e clareiras, em roteiros com o propósito de sensibilização, contemplação e de autoconhecimento. Sempre integrando á paisagens naturais, uma sabedoria ancestral, que convencionamos chamar de indígena, mas que vem de diversas culturas nativas brasileiras, predominantemente tupy e tapuia.  
Desde 1994 tenho abordado atividades pelo enfoque em valores humanos e cultura de paz, quando comecei na Fundação Peirópolis de Educação em Valores Humanos e na Unipaz; organizações que atuo até hoje. Estas instituições me propiciaram um aprofundamento em estudos nas tradições indígenas do Brasil e me deram a oportunidade de difundi-las em cursos, seminários e imersões.  
No entanto, além de professor e facilitador de seminários e cursos; desde meados dos anos oitenta, com o povo guarani de São Paulo, destino considerável parte do meu tempo em projetos sociais em comunidades indígenas. Os povos do sudeste e do nordeste também tem sido o meu foco de atuação e desenvolvimento de pequenos suportes, na grande maioria das vezes, voluntários.    
As comunidades indígenas de modo geral são extremamente dependentes de programas assistencialistas governamentais á décadas, e isto enfraqueceu não somente a identidade cultural, mas também a dignidade social de diversas etnias; influenciando diretamente em sua capacidade de sustentação econômica e ecológica. Quando percebi este quadro no fim dos anos oitenta, juntamente com amigos e depois com minha família, colocamos em curso uma série de iniciativas em direção á valorização cultural e geração de renda. Foi assim que passamos a fomentar apresentações culturais para os guaranis, kariris, pataxós. Estimulamos a gravação de CDs, produção de livros, inserção em seminários, fóruns, congressos.  E isto causou um choque em uma parcela da sociedade que via na época, início dos anos noventa, o índio como algo fadado á extinção, ou cuja cultura não poderia transcender os limites de seus modos tradicionais de vida.
Neste período alguns povos começaram a buscar alternativas sustentáveis e foram criando certa independência social. Este fenômeno aconteceu simultaneamente na Amazônia, no Nordeste, no Sudeste e nas áreas urbanas. E modelos se influenciaram mutuamente. Em minhas empreitadas pelas aldeias sempre coloquei a importância de aliarmos três causas: a questão da cultura, a questão da educação e a questão do ambiente. Entendia a cultura como uma qualidade imprescindível e local a ser cuidada, a educação como uma ferramenta de combate á distorções históricas em relação ás nossas raízes afro-tupi que geraram discriminações e desestruturações sociais; e o ambiente como um bem global a ser manejado com sabedoria e cautela. 
Com o passar do tempo, projetos e ações foram se realizando, e com isso veio alguns inesperados reconhecimentos. Em 2003 a Bovespa criou um braço de apoio á projetos ambientais para organizações do terceiro setor e me chamou para ser um dos doze conselheiros. Em seguida, 2005, a Ashoka Empreendedores Sociais, entidade de reconhecimento mundial, me honrou com a valorização e premiação da idéia que gerou uma nova tecnologia social voltada para as comunidades as quais eu trabalhava na época e que foi aperfeiçoada através do Instituto Arapoty.  Descobri que era um empreendedor social, ao unir equilíbrio ecológico, valorização de culturas e geração de renda. Fui chamado para falar disso em diversos países, como Estados Unidos (em San Francisco, Stanford), França (na UNESCO) e Inglaterra (Oxford) em ambientes de públicos diversos, como líderes religiosos, líderes do terceiro setor e empresários.
  Em 2010 a revista Trip reconheceu o conjunto de ações que desempenhava como transformadoras da sociedade, o que para mim e a equipe de trabalho que me acompanha á décadas, foi uma grata e feliz surpresa. Foi nessa época que comecei a achar que passava da hora de haver uma política pública que saísse de premissas assistencialistas para um novo paradigma; o empreendedorismo sustentável e cooperativo. Já havia algumas experiências de sucesso com o Instituto Arapoty, com aliados como Marcelo Rosenbaum, onde sou seu parceiro no programa social A GENTE TRANSFORMA e o Instituto Elos, onde á 14 anos formamos na ESCOLA DE GUERREIROS SEM ARMAS, um novo tipo de protagonismo juvenil com foco na cooperatividade e desenvolvimento de cultura de paz.
De 1994 á 2014 trabalhamos em mais de 90 pequenas comunidades: indígenas, rurais, favelas, cortiços, caiçaras, populações ribeirinhas; recuperando valores culturais e dignidade social. Foram mais de 10.000 famílias que se tornaram gestoras de sua condição econômica e cultural. Projetos realizados com muito voluntarismo, poucos recursos financeiros iniciais e muito respeito á diversidade. Estas iniciativas fecundaram em mim uma síntese de experiências passíveis de colaborar também em propostas de políticas públicas.


O projeto Territórios da Dignidade pretende justamente trazer a voz de líderes e comunidades indígenas para que a sociedade esteja atenta e se abra para acolher propostas de políticas dessas vozes e de nossas raízes. Mas basicamente que saia da condição de dependencia social  e assistencialismo para um empreendedorismo fundamentado no cuidado, manejo adequado de recursos, valorização de culturas locais para o resgate da dignidade de nossas raízes ancestrais.
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