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ÍNDIO QUER MAIS QUE APITO

As políticas públicas que o estado brasileiro tem proporcionado para os povos indígenas ainda seguem um modelo estruturado no período liderado pelo Marechal Rondon iniciado na década de 1950 e expandida na geração do indigenismo, cujos ícones referenciais: os irmãos Vilas Boas, se ancoram pela década de 1960 em diante.
Esse modelo parte de uma premissa de incapacidade do exercício de cidadania por toda uma pluralidade étnica existente no Brasil e desconsidera descendentes diretos, a mestiçagem, os remanescentes, e a cidadania emergente de grupos e indivíduos que se acentua desde o início dos anos de 1990.
O indigenismo que se operou na década de 50 representou um profundo avanço para época, pois no período de Velha República, do Império e anteriormente na época das capitanias hereditárias; a política pública para os povos originários era o escravagismo, a anulação de seus valores e crenças e o estímulo ao extermínio.
No entanto, para os tempos atuais, as ações em relação aos povos remanescentes de raízes ancestrais do Brasil resumem-se a um assistencialismo que imobiliza a oportunidade dessas culturas de promoverem sua sustentabilidade econômica e sua inclusão social baseada nas próprias experiências e práticas tradicionais.
Desde essa época até o presente momento, os governos que se sucedem não conseguem cumprir satisfatoriamente um conjunto básico do próprio assistencialismo proposto, notadamente nas áreas de saúde e justiça social; além de não atender a principal garantia de uma autonomia dessa diversidade de saberes que é a demarcação de seus territórios tradicionais.
Este modo de relacionamento com os povos indígenas representa um velho paradigma na maneira de lidar com questões da pluralidade étnica e que tem tido poucas variações nos tempos atuais no campo da política. Ele desconsidera os valores individuais e coletivos, os saberes tradicionais e os potenciais criativos de povos e pessoas remanescentes de sociedades milenares.

O NOVO PARADIGMA: COMO SE ORGANIZAM OS POVOS E CIDADÃOS INDÍGENAS NO BRASIL HOJE?
Do início da década de 80 para cá, inicia-se uma mudança de uma mentalidade assistencialista indigenista para o fomento de iniciativas de líderes tradicionais e descendentes indígenas de áreas urbanas passam a reivindicar direitos de pertencimento á raízes ancestrais.
A partir de uma indignação de pessoas e grupos de remanescentes ou descendentes de culturas milenares, mas que absorveram ou dialogam com os códigos sociais do mundo contemporâneo, valendo-se de memórias genéticas e culturais; diante do desastre ecológico e social que se expande em ecossistemas e centros urbanos; nasce um novo tipo de resistência e de proposições.
             O marco do protagonismo indígena se dá em 1983, com a eleição de Mário Juruna, o primeiro índio deputado federal do Brasil. Eleito pelo PDT de Leonel Brizola. Ele foi responsável pela criação da Comissão Permanente do Índio, que se extinguiu após sua participação na Câmara Federal. No período em que cumpriu o seu mandato, enquanto sua figura era folclorizada, a partir de seu gabinete surgiram protagonistas de articulações inter-étnicas e diálogos com a sociedade.  Seu mandato serviu para o surgimento de lideranças indígenas que levaram á sociedade reflexões e necessidades que se agregaram paulatinamente ao movimento ambientalista e cultural pela base ecológica em comum. 
Depois do período da Constituinte de 1988 os povos indígenas foram pouco a pouco deixando de serem representados somente pelo órgão oficial do Estado conhecido como FUNAI (Fundação Nacional do Índio).  Assim também como foi se modificando os graus de relacionamento com a sociedade como um todo.
 A população indígena foi aumentando e a década de 1990 presenciou um fenômeno de afirmação étnica e ressurgimento de remanescentes de culturas dadas como extintas.  De 180 mil na década de 1980, para quase 400 mil pessoas no fim dos anos 1990 e atualmente mais de 900 mil pessoas em todo o território nacional.
Existem mais de 80 organizações não governamentais coordenadas por líderes indígenas, antropólogos, ambientalistas que trabalham com objetivos diferentes dos antigos indigenistas do velho paradigma.  Dessas destaca-se por exemplo, a COIAB (Confederação Indígena da Amazônia Brasileira) e a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) no sentido de tentarem pela via política um protagonismo em comum; também o CIMI (Conselho Indígena Missionário), um braço da igreja católica que apoia a luta dos povos originários no país.
Os temas imprescindíveis para os povos indígenas hoje se relacionam á terra, á vida digna e sustentável, e á manutenção de valores sagrados enraizados em identidades ancestrais, mesmo havendo mudanças de padrões culturais externos. Em uma época de transformações sociais e crises ecológicas e econômicas que ocorrem no Brasil e no mundo; num tempo em que questões locais e globais são quase que imediatamente inter-relacionadas pela velocidade das atuais mídias em voga.
No que se refere á terra, o ponto central para as culturas indígenas não é conquista e posse de territórios; na verdade isto é uma condição para a preservação da floresta em pé, do solo livre de agrotóxicos e do subsolo relativamente protegido da sanha da exploração inconsequente de minérios; em uma época que já é sabida o quanto isto interfere no clima, na qualidade de vida e no desenvolvimento humano como um Todo.
No que se refere á vida digna e sustentável, os saberes tradicionais proporcionam sustentabilidade sem degradação, e os cidadãos remanescentes de culturas que sofreram diferentes graus de transformação e mudança seja pela influência ou mestiçagem, se utilizam da arte e do artesanato para gerar uma economia criativa, que não degrada a natureza e nem submete pessoas á dependência social ou política.
Já a manutenção dos valores sagrados é um tema realmente imprescindível para os povos tradicionais pois faz menção á um modo de expressar a espiritualidade profundamente ligada á identidade cultural naquilo que ela tem de essencial.
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